O mundo entrou em uma fase demográfica inédita. Em várias economias desenvolvidas — e também em potências emergentes — nascem cada vez menos crianças, enquanto a população envelhece em ritmo acelerado. Isso muda completamente o debate sobre automação. A pergunta deixou de ser se a inteligência artificial vai substituir humanos. A nova questão é quem fará o trabalho quando simplesmente não houver jovens suficientes.
A crise silenciosa da natalidade

A queda da natalidade deixou de ser um fenômeno isolado. A China cruzou um marco histórico em 2022: pela primeira vez em seis décadas, sua população começou a encolher. Em 2024, o país perdeu cerca de 1,4 milhão de habitantes, impulsionado por uma taxa de fertilidade próxima de 1,2 filho por mulher — muito abaixo do nível de reposição populacional.
O impacto vai além dos números absolutos. A população chinesa com mais de 65 anos deve ultrapassar 30% já em 2035, enquanto a força de trabalho pode diminuir em centenas de milhões de pessoas até 2050. O resultado é uma equação difícil: menos trabalhadores ativos sustentando um número cada vez maior de aposentados.
Um problema global, não apenas chinês
A China não está sozinha. O Japão convive há mais de uma década com declínio populacional, e quase um terço de seus habitantes já tem mais de 65 anos. A Coreia do Sul enfrenta a menor taxa de natalidade do mundo, abaixo de um filho por mulher, e registra mais mortes do que nascimentos desde 2020.
Na Europa, o cenário é semelhante. Projeções indicam que, em meados do século, mais de um quarto da população terá idade acima dos 65 anos. Em todos esses casos, a escassez de jovens ameaça o crescimento econômico, os sistemas de saúde e os regimes de previdência.
Quando a tecnologia vira necessidade, não ameaça

É nesse ponto que a narrativa sobre automação se inverte. Em sociedades envelhecidas, robôs e sistemas de inteligência artificial deixam de ser vistos como substitutos indesejados e passam a ser aliados indispensáveis. Sem mão de obra suficiente, manter a produtividade dependerá diretamente da automação.
Especialistas em economia do trabalho já defendem que, sem IA e robótica, muitos países simplesmente não conseguirão sustentar seus sistemas de aposentadoria. A tecnologia, nesse contexto, não “tira” empregos — ela ocupa vagas que não encontram mais pessoas dispostas ou disponíveis para preenchê-las.
A China como laboratório do futuro
A China é hoje o maior experimento real dessa transição. O país lidera a robotização industrial, com cerca de dois milhões de robôs operando em fábricas. Em 2024, instalou quase 300 mil novas unidades — mais da metade de todos os robôs industriais implantados no mundo naquele ano.
Essas máquinas compensam a escassez de trabalhadores jovens e mantêm a produção em níveis elevados. Além disso, o governo chinês começou a testar robôs cuidadores para idosos, tentando suprir a falta crescente de profissionais de saúde e assistência social.
Cidades inteligentes e serviços automatizados

A automação não se limita às fábricas. Em centros urbanos chineses, sistemas de IA já otimizam serviços públicos. Em Hangzhou, por exemplo, uma plataforma de gestão urbana baseada em inteligência artificial reorganizou o trânsito e reduziu drasticamente a congestão, liberando agentes humanos para tarefas mais complexas.
Modelos semelhantes começam a surgir em outros países asiáticos e também no Ocidente, onde a digitalização e a IA aparecem como respostas diretas à queda da natalidade.
O possível surgimento de países “robot-nativos”
Diante desse cenário, alguns analistas acreditam que veremos em breve o primeiro país “robot-nativo”: uma sociedade que integra robôs e IA como parte estrutural da força de trabalho, não por luxo tecnológico, mas por necessidade demográfica.
Japão e Coreia do Sul avançam rapidamente nessa direção, investindo em robôs de cuidado, logística e manufatura. A tendência indica que esse caminho será seguido por outras economias envelhecidas.
Um novo contrato social em construção
A crise de natalidade força uma revisão profunda do contrato social. Se faltarão braços jovens, máquinas inteligentes precisarão assumir parte do esforço produtivo. Isso exige políticas públicas, regulação e debate ético — mas também pragmatismo.
No fim das contas, a grande ironia do século XXI é clara: depois de temer que a IA nos deixasse sem trabalho, podemos descobrir que serão justamente os robôs e algoritmos que manterão a economia funcionando, os serviços ativos e as aposentadorias pagas em um mundo cada vez mais grisalho.
[ Fonte: Infobae ]

