A TV aberta entra em 2026 com mais cautela do que nunca. No ano em que o dinheiro da publicidade deve ser mais destinado ao digital do que às grandes emissoras pela primeira vez na história, o que se desenha é um cenário de contenção mais forte: menos dinheiro entrando e grades preenchidas com o que já está testado. E validado.
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Apesar do canhão de audiência que a televisão aberta ainda seja, o rumo do grosso da grana publicitária mudou. As verbas seguem migrando para o digital e em 2026, a guerra já não é mais pela audiência – como já não é mesmo -, mas por sobrevivência. E eficiência.
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O que deve garantir algum espasmo é a Copa do Mundo e eleições. Globo e SBT, por exemplo, miram investimentos – e recebimentos – no esporte mais popular do planeta. Durante pelo menos dois ou três meses, a TV deve respirar onde já reinou soberana, mas agora precisa dividir as atenções também com a internet.
Esses eventos, contudo, geram um pico pontual, mas não uma mudança estrutural. O desafio da TV aberta continua sendo o mesmo: como permanecer central na rotina do público quando o consumo fragmentou e o tempo de atenção se dissipou.
Novelas e linha de shows

Pela primeira vez em anos, o SBT não tem uma próxima novela garantida na grade. Depois do fracasso de A Caverna Encantada, o núcleo foi desmontado e projetos ainda são avaliados. Há que ser mais seletivo, já que o investimento é da ordem de milhões e pode custar caro caso não haja o retorno esperado.
A Globo, apesar de manter uma dramaturgia robusta, principalmente agora com um investimento maciço no streaming, também tem deficiências. E a principal delas é na linha de shows. Faz cada vez menos sentido produzir exclusivamente para a faixa depois da novela das nove, com exceção do Big Brother Brasil, que já é um produto multiplataforma.
A líder de audiência se agarra a ser uma segunda janela do Globoplay e a ser inventiva sem perder a competitividade. Quando a emissora deixa de tentar algo novo em uma faixa inteira, ela está admitindo que não quer arriscar dinheiro onde o retorno é incerto.
A Record segue terceirizando a produção de novelas – ou séries – bíblicas para a Igreja Universal do Reino de Deus, mas também não queima dinheiro. A produção de um novo reality que tem Boninho à frente, é calculada. E tem custos divididos. Não há loucuras.
Band e RedeTV!, mais do que nunca, essas sim, lutam pela sobrevivência. A primeira faz parcerias e até tem conseguido ser criativa, mas o “boleto” segue alto em um modelo de negócio que é insustentável. A segunda, agora sem Marcelo de Carvalho, tem bons nomes no casting, mas falta capacidade de investir em mais horários na grade, que em grande parte já está tomado por terceiros. Não por acaso. Afinal… é a sobrevivência.
Jornalismo, esse sim
O que parece ser o presente e futuro, contará com investimentos de todos os canais em 2026, principalmente no último trimestre. O jornalismo, como um evento ao vivo, é um filão que jamais deve ser descartado, mas priorizado. No entanto, não a qualquer custo.
O investimento é preciso, mas deve ser cirúrgico. Mais integração entre TV e digital, mais conteúdo reaproveitado em várias janelas, mais entradas ao vivo com equipes menores, e uma cobrança interna maior por performance. É fazer mais (sempre!) com menos.
Programação escassa não é só falta de novidade
Quando se fala em programação escassa, não é apenas o telespectador sentindo que “não tem nada de novo”. É um fenômeno de grade que já está acontecendo: menos faixas com identidade própria, mais blocos elásticos, mais programas que absorvem tempo, mais repetição disfarçada. Você muda o nome, muda o cenário, muda o quadro, mas o esqueleto é o mesmo.
O custo de errar hoje é alto. Antigamente, uma estreia ruim era um tropeço. Agora, pode virar uma crise que arrasta meses, destrói uma faixa e derruba preço de tabela.
Hoje, programas se esticam, ocupam mais horas. Na prática, menos estreias reais, menos projetos com DNA novo (e de TV raiz!), menos apostas.
Para quem gosta, e é apaixonado por TV aberta, talvez veja um 2026 com ainda menos brilho. Mais pragmático. Mas, esse é o retrato não só desse ano, como também dos próximos.
Thiago Forato é jornalista, assina a coluna Enfoque NT desde 2011, além de matérias e reportagens especiais no NaTelinha. Converse com ele pelo e-mail thiagoforato@natelinha.com.br

