
Em vídeo feito por IA, o prefeito carioca, Eduardo Paes (esquerda), aparece ao lado de estrelas, como Paul McCartney – Foto: reprodução
O ano começou com a viralização de um vídeo feito por inteligência artificial da prefeitura do Rio de Janeiro, em que o prefeito Eduardo Paes aparece ao lado de grandes estrelas internacionais, como Paul McCartney, Beyoncé e Rihanna. Claramente o marketing municipal não tentou enganar ninguém, até mesmo porque aqueles artistas nunca estiveram juntos em qualquer palco no mundo, muito menos com Paes. Mas esteja certo de que muita gente acreditou que Adele, Chris Martin e companhia realmente visitaram a cidade para fazer uma ponta na peça publicitária carioca.
Esse é um exemplo recente de um fenômeno que se agiganta graças à inteligência artificial. Estamos na aurora da era em que não poderemos acreditar em mais nada, pois mesmo as ideias mais desvairadas aparecerão diante de nossos olhos, sintetizadas por essa tecnologia. E ironicamente, os conteúdos falsos começam a ficar mais críveis que a realidade.
Dotada de um poder sem igual, que está revolucionando vidas e negócios, a IA infelizmente também se presta a uma miríade de crimes. Não porque tenha inclinação a malfeitos, mas porque seus limites a usos indevidos são inacreditavelmente falhos.
Diante de mentes diabólicas, isso é um convite à tragédia. Basta ver como as redes sociais foram instrumentalizadas por políticos e diversos tipos de criminosos.
Políticos sempre mentiram. Porém, de 15 anos para cá, perceberam que essas plataformas, irresponsáveis com o que acontece em suas páginas, eram a máquina perfeita de convencimento das massas.
Afinal, “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Essa é a forma mais difundida da frase “quando uma mentira é repetida com frequência suficiente, ela acaba sendo acreditada”, do ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels.
Com as redes sociais, as mentiras são repetidas milhões de vezes, e, de fato, se tornam “verdades”, mesmo quando são toscas. Faltava aos criadores de fake news refinamento nas ideias e principalmente nas criações. Agora, com a IA, esse limite caiu.
Goebbels não tinha redes sociais nem IA. Ele eliminou o jornalismo profissional e colocou veículos dóceis para repetir suas versões. Criminosos atuais combinam as duas tecnologias para massificar o que quiserem, sem compromisso com a realidade, moral ou leis.
As big techs se isentam, culpando os usuários maliciosos. Mas essa é uma desculpa abominável de alguém que lucra com a desinformação, e que, por isso, faz muito menos do que poderia para reduzi-la. Um falso paralelismo comum é dizer que a indústria automobilística deveria, então, ser culpada quando um carro fosse usado em um assalto. Mas uma analogia mais honesta seria dizer que a indústria ficaria com parte de cada roubo feito com seu veículo.
Vale lembrar que, há menos de um ano, quando surgiram as primeiras ferramentas de criação de vídeo com IA, seus desenvolvedores relutaram em liberá-las para o mercado, por medo de que fossem usadas para fins ilícitos. Infelizmente, essa preocupação ética durou bem pouco, diante da possibilidade de lucros.
Assim, entramos em 2026 diante da perspectiva de não sabermos mais o que é real, mesmo que esteja diante de nossos olhos. Já são gravíssimos os incontáveis golpes em que as pessoas estão caindo por isso. Porém, o maior risco é a sociedade evoluir para um amontoado de pessoas incapaz de acreditar em mais nada.
A civilização moderna construiu-se sobre pilares como a ciência, a educação e a imprensa. Não é coincidência que todas elas sejam atacadas nessa nova ordem mundial, em que vencem aqueles que mentem melhor, que gritam, agridem e invadem o que é do outro.
A inteligência artificial obviamente não é ruim, mas seus criadores precisam ser mais responsáveis para verdadeiramente combater seus usos indevidos. Por outro lado, os pilares cívicos acima precisam ser revalorizados pela sociedade. Afinal, em um mundo em que a verdade foi totalmente relativizada, precisaremos da curadoria de fontes confiáveis para nos guiar pelo caminho da ética e do bem-comum.
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