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Inteligência Artificial e mudanças climáticas: um dilema ético da contemporaneidade

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Quando os países que ratificaram o Acordo de Paris se comprometeram a travar o aquecimento global abaixo dos 2 °C, idealmente nos 1,5 °C, sabiam que o caminho seria difícil. O tempo veio confirmá-lo.

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A ambição existe no papel, mas a execução tem ficado aquém, travada por falta de vontade política, desigualdades entre países e uma economia mundial ainda fortemente dependente dos combustíveis fósseis. Neste contexto, o advento da Inteligência Artificial (IA) é uma incógnita tecnológica. Um aparente dilema de Fausto.

Por um lado, temos a promessa de um poderoso instrumento acelerador da transição climática e da inovação, mas por outro temos um pesado fator de pressão sobre sistemas energéticos já sobrecarregados e ainda longe da sustentabilidade.

Existem muitos estudos sobre o consumo energético e o aumento de emissões de gases com efeito de estufa associados à IA. É relativamente fácil medir esses impactos negativos. Mais difícil parece ser quantificar o lado positivo da equação, avaliando até que ponto a IA pode, de facto, contribuir para a mitigação as alterações climáticas. Com esta assimetria, é difícil determinar se o saldo dos impactos da IA é positivo ou negativo para o ambiente.

Um artigo recente publicado na revista Nature ajuda a clarificar esta questão. O primeiro autor é Nicholas Stern, o economista britânico que em 2006 se celebrizou ao publicar o ‘Relatório Stern’ sobre a economia das alterações climáticas. O artigo analisa o papel da IA na construção de uma economia neutra em carbono e conclui que, mesmo tendo em conta o seu colossal consumo energético, a IA pode ser um instrumento crucial no combate às alterações climáticas. Por exemplo, aplicando IA a sectores como a energia, a produção alimentar e os transportes, que são responsáveis por quase metade das emissões globais, podem obter-se reduções anuais entre 3,2 e 5,4 gigatoneladas de CO₂ equivalente até 2035. Este é um valor que pode impulsionar significativamente o mundo na direção das trajetórias de emissões previstas no Acordo de Paris.

Contudo, esta mesma tecnologia que permite redes elétricas mais eficientes, melhor integração de energias renováveis, transportes e logística mais inteligentes, agricultura e aquacultura de precisão e redução de resíduos implica um aumento significativo do consumo de eletricidade.

Hoje, os centros de dados e os grandes modelos de IA já representam uma parte relevante da procura elétrica global, e sem uma matriz energética sustentável, esse consumo pode neutralizar os esforços de mitigação das alterações climáticas. Com o crescimento dos consumos dos centros de dados, é crucial que haja regulação e padrões de sustentabilidade para que a energia que os alimenta venha de fontes renováveis, e incentivos para a produção de energia para autoconsumo.

A possibilidade de autoconsumo isolado em centros de dados deve também ser facilitada, para flexibilizar a instalação destes centros em locais com menor impacto ambiental e reduzir a necessidade de investimento em infraestruturas.

O debate sobre a IA e as alterações climáticas não deve polarizar-se entre otimismo tecnológico e pessimismo energético. Há bons motivos para crer que os benefícios potenciais de uma IA aplicada à transição climática podem ser relevantes e quantificáveis, mas dependerão de visão estratégica, políticas públicas eficazes e investimentos direcionados para sectores onde o impacto previsível é maior.

A IA é uma das ferramentas tecnológicas capazes de acelerar, no curto prazo, a transição que o Acordo de Paris exigiu há uma década.

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