A adoção de ferramentas de inteligência artificial para seleção e gestão de pessoas avançou rapidamente no último ano e já está alterando o perfil dos talentos que chegam às organizações. Um levantamento realizado pela Caju, empresa de tecnologia para gestão de benefícios e RH, em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC), revela que 68% das empresas brasileiras já utilizam IA para triagem de currículos. O crescimento ocorre embalado pela busca por produtividade e redução de custos, mas especialistas alertam para efeitos colaterais importantes: a automatização tende a homogeneizar critérios e a prejudicar a diversidade de perfis.
Ao transferir decisões preliminares de recrutamento para algoritmos, companhias passam a operar com filtros que padronizam trajetórias, repertórios e comportamentos. Esse processo cria um funil que favorece similaridades e elimina candidatos que provocam fricções — justamente o oposto do que a maioria das empresas declara buscar quando fala em inovação e diversidade. Em funções que exigem pensamento crítico, interpretação e resolução criativa de problemas, a homogeneização pode se transformar em risco estratégico.
Para Georgia Reinés, cofundadora da consultoria Página 3 e diretora do estudo Mais do Mesmo, que investiga os impactos da IA na formação de repertórios, o fenômeno tem consequências diretas sobre competitividade. “Quando os critérios de seleção são automatizados a partir de parâmetros prontos, além de contradizer o discurso corporativo em torno da diversidade, a empresa mata seu potencial de inovação. Se apenas pessoas que reforçam padrões existentes são selecionadas, as equipes reproduzirão o senso comum e a empresa não criará diferenciação de mercado”, afirma.
O estudo destaca ainda um ponto considerado mais sensível: o uso disseminado de IAs generativas vem tornando comportamentos e decisões mais previsíveis, tanto dentro quanto fora do ambiente corporativo. A pesquisa indica que metade dos brasileiros percebe que “todo mundo está ficando parecido”, enquanto 72% dizem desejar ser mais autênticos. No contexto do recrutamento, a tendência reforça o risco de que a busca por eficiência operacional comprometa pluralidade, criatividade e identidade individual.
Embora ferramentas de IA tenham potencial para ampliar o acesso de candidatos, reduzir vieses humanos e acelerar processos, especialistas afirmam que o atual modelo de implementação — baseado em parâmetros padronizados e filtragem automática — pode ter efeito oposto caso não seja acompanhado de estratégias de governança, revisões criteriosas e intervenções humanas. A discussão se tornou central em empresas que dependem de diferenciação para competir em mercados saturados e em ecossistemas que valorizam pensamento crítico como ativo de inovação.

