A Inteligência Artificial (IA) está a tornar-se uma presença cada vez mais frequente nos hospitais, consultórios e em casa. Dúvidas, exames e diagnósticos clínicos começam a ser influenciados por sistemas como o ChatGPT. Mas enquanto a promessa tecnológica é fascinante, os utentes devem questionar: que cuidados devemos ter ao confiar em sistemas que ainda não explicam de forma clara como tomam decisões?
O ChatGPT, uma das versões mais populares de IA generativa, é treinado com milhões de textos médicos e científicos. Pode apoiar utentes, médicos e estudantes na formulação de hipóteses diagnósticas, sumarização de histórias clínicas e identificação de padrões complexos em grandes bases de dados. Tudo isto pode, em teoria, traduzir-se em diagnósticos mais rápidos, maior eficiência nos cuidados e até acessibilidade em regiões com escassez de profissionais. Contudo, para o cidadão comum, é fundamental entender que estes sistemas não substituem a avaliação médica presencial.
Um dos principais riscos é confiar cegamente em recomendações produzidas por algoritmos que operam como verdadeiras “caixas negras”, ou seja, não sabemos como operam. Mesmo quando um sistema como o ChatGPT sugere um diagnóstico ou tratamento, não significa que esteja certo, e, sobretudo, não significa que compreenda o seu caso específico. A ausência de explicabilidade pode gerar mal-entendidos, insegurança e até decisões erradas por parte de quem interpreta isoladamente a resposta da máquina.
Por isso, o primeiro conselho aos utentes é simples: nunca substituir a consulta médica por uma conversa com um chatbot. Mesmo quando a resposta parece fundamentada ou convincente, é essencial validar qualquer informação com um profissional de saúde habilitado. Lembre-se de que os algoritmos são treinados com dados populacionais e não têm acesso ao seu histórico clínico completo nem à sua vivência pessoal. Contudo, esta ferramenta pode ser interessante para preparar a sua consulta, levando questões e pontos menos claros à presença do clínico.
É importante ainda estar atento à origem da informação. Chatbots e sistemas de IA não distinguem automaticamente entre fontes fiáveis e conteúdos errados que circulam na internet. Se receber uma sugestão de diagnóstico ou tratamento, pergunte sempre: esta informação vem de uma fonte médica credível? Foi validada por profissionais? E, mais importante, é aplicável ao meu caso? Rapidamente posso dizer o seguinte: algumas editoras científicas, aquelas que exigem processos de revisão longos e exaustivos sobre novos artigos científicos, bloqueiam o acesso a estas informações. Ficam assim disponíveis, artigos em fase de pré-publicação (ou seja, ainda não avaliados independentemente) ou editoras com metodologias de revisão mais lassas.
Outro ponto crítico é a proteção de dados. Muitos utentes utilizam aplicações com IA para obter conselhos sobre sintomas, mas nem sempre se informam sobre como os seus dados são utilizados ou armazenados. Sempre que possível, prefira plataformas que estejam em conformidade com os regulamentos europeus de proteção de dados e que garantam confidencialidade e transparência.
A IA pode ser uma aliada importante no acesso à informação e no apoio à literacia em saúde. Pode ajudar a esclarecer dúvidas, sugerir perguntas a colocar ao médico e promover o envolvimento ativo dos utentes na sua saúde. Mas este apoio deve ser sempre mediado por senso crítico, responsabilidade e, sobretudo, pela orientação de profissionais de saúde.
A União Europeia já está a criar regras para garantir maior transparência e segurança na utilização da IA na saúde, dado que se tem verificado uma desregulação potencialmente perigosa para a saúde de cada um. Mas enquanto estas regulamentações não forem totalmente aplicadas, cabe também aos utentes exercerem um papel ativo e informado. Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de usá-la com prudência.
Em última análise, a pergunta mais importante não é se devemos confiar num algoritmo, mas sim como garantir que este complemente o nosso cuidado, sem o substituir. Porque a tecnologia pode ajudar-nos a viver melhor, mas apenas se continuarmos a ser os protagonistas das decisões sobre a nossa própria saúde.
