Na missiva sustentada com vários estudos e relatórios internacionais, docentes de várias instituições do país defendem que é preciso “humanizar o ensino” e banir a IA das universidades e politécnicos, uma escolha que reconhecem como “a mais difícil e também a mais urgente”. “Se queremos preservar autonomia e integridade, independência e liberdade nos planos intelectual, científico e cultural, e assim contrariar a trajetória de empobrecimento cognitivo e emocional em curso, temos de ser capazes de resistir coletivamente ao avanço imparável desta nova economia política geradora de sofisticados regimes de servidão digital”, consideram os subscritores do manifesto.
Ao longo de três páginas, os professores do Ensino Superior enumeram os principais desafios que a esta tecnologia traz aos estudantes, aos professores e ao ensino. Na opinião dos autores do texto, a IA transforma os alunos em “cretinos digitais” e rouba-lhes “esforço, trabalho e dedicação” sob um “espesso manto de ignorância, facilitismo, desonestidade intelectual, copianço e rapidez”. Enquanto os estudantes são “as grandes vítimas” da IA, que constitui “um dos maiores problemas enfrentados pelas instituições de Ensino Superior”, a situação dos professores “não é melhor”.
“Enredados numa densa trama de burocracias inúteis que os satura e esgota, enfrentam agora desafios novos decorrentes de um dilúvio digital, encabeçado pela IA, que é de tal modo avassalador que não pode deixar de gerar uma sensação difusa de impotência e desalento”, lê-se no manifesto, que destaca o facto de os docentes serem cada vez mais confrontados com “trabalhos artificiais sistematicamente nivelados pela mediania de um chatbot”. Segundo os autores da missiva, o recurso à IA por parte dos alunos obriga os professores a regressarem a instrumentos de avaliação que “vinham sendo abandonados no contexto da progressiva valorização de formas de ensino centradas nos estudantes”, como os testes de escolha múltipla.
“Naturalmente, a incapacidade para penalizar ou até mesmo identificar com rigor práticas académicas fraudulentas poderá ou não levar a modos mais ou menos engenhosos de cinismo escapista ou demissão do exercício intelectual da crítica, mas irá sempre redundar na interiorização de uma grande dose de sofrimento psíquico e culpa por parte dos professores”, atenta o texto.
“Questiona-se cada vez menos”
Sem esquecer de apontar as “contradições resultantes da bolha especulativa gerada em torno da IA”, bem como a sua pegada ambiental “absolutamente insustentável” ou os custos humanos “de quem treina os algoritmos”, os docentes universitários consideram também que a tecnologia em causa empobrece “a nossa capacidade de pensar e transformar o Mundo”. “Quando a organização do seu funcionamento é reduzida ao absurdo dos rankings, fatores de impacto e indexações, até se pode publicar cada vez mais, mas questiona-se cada vez menos”, afirmam.
E terminam com um apelo: “Se existem ainda preocupações genuínas com o futuro dos estudantes, mas também de professores e instituições, o caminho, estreito e não isento de riscos, tem de passar necessariamente pela suspensão generalizada do uso deste tipo de ferramentas nos processos de ensino-aprendizagem“.
João Teixeira Lopes, professor catedrático da Universidade do Porto, Raquel Varela, professora auxiliar da Universidade Nova de Lisboa, Viriato Soromenho-Marques, professor catedrático aposentado da Universidade de Lisboa e Elísio Estanque, professor associado jubilado da Universidade de Coimbra são alguns dos subscritores.

