A Fujitsu, do ramo de tecnologia da informação e comunicação, está se reinventando. A companhia japonesa aproveita sua experiência como fabricante de eletrônicos para combinar hardware com serviços de inteligência artificial.
Os Estados Unidos e a China lideram atualmente os campos de tecnologia da informação (TI) e inteligência artificial. A estratégia da Fujitsu é oferecer inteligência artificial como um pacote que inclui hardware, como semicondutores de última geração e computadores quânticos.
Movimentos globais para estabelecer tecnologias de inteligência artificial desenvolvidas internamente — impulsionados por preocupações com a segurança econômica — também estão favorecendo a Fujitsu.
No início de fevereiro, em um fórum de negócios de dupla finalidade realizado em Estocolmo, Suécia, o executivo da Fujitsu, Mikihito Saito, ouviu repetidamente autoridades governamentais europeias e líderes da indústria de defesa afirmarem que desejavam reduzir sua dependência de inteligência artificial em relação aos Estados Unidos.
Saito supervisiona os negócios internacionais da Fujitsu e é amplamente considerado um dos principais candidatos a se tornar o próximo executivo-chefe (CEO) da empresa. No fórum, ele promoveu as tecnologias avançadas de semicondutores da Fujitsu voltadas para inteligência artificial e suas capacidades de computação quântica.
Embora a Europa possua empresas focadas em software, como a alemã SAP, poucas empresas detêm tecnologias de ponta tanto em hardware quanto em software. “Há grandes expectativas em relação à Fujitsu como uma empresa de tecnologia japonesa, distinta das americanas ou chinesas”, disse Saito.
A demanda por inteligência artificial soberana — sistemas desenvolvidos e operados internamente — está crescendo. Governos, incluindo o japonês, estão adotando esses sistemas para reduzir riscos como vazamentos transfronteiriços de dados confidenciais e dependência excessiva de tecnologias estrangeiras, uma tendência impulsionada por preocupações com a segurança econômica.
A Fujitsu acredita que semicondutores e sistemas de computação para inteligência artificial produzidos internamente se tornarão cada vez mais valiosos no futuro.
Mas, como alcançar a produção nacional não é realista para as empresas europeias, a empresa vê mais governos e empresas buscando soluções fabricadas no Japão como a melhor opção, em vez de equivalentes chineses ou americanos.
Empresas de defesa europeias, em particular, demonstraram interesse nos semicondutores da Fujitsu, mesmo na fase pré-comercial. Os chips da Fujitsu poderão ser instalados em caças no futuro.
A Fujitsu planeja comercializar uma unidade central de processamento (CPU) de última geração, com tecnologia de 2 nanômetros, chamada Monaka, em 2027. A empresa também está se preparando para desenvolver unidades de processamento neural especializadas para cargas de trabalho de inteligência artificial.
A tecnologia de semicondutores da Fujitsu possui um histórico comprovado – ela foi utilizada no supercomputador Fugaku, carro-chefe do Japão, bem como em seu antecessor, o K Computer. Em outubro, a Fujitsu firmou uma parceria com a fabricante de chips americana Nvidia na área de semicondutores para inteligência artificial, após ser contatada pela empresa americana.
A Fujitsu não iniciou o desenvolvimento de semicondutores para inteligência artificial com o objetivo de criar inteligência artificial soberana.
O esforço começou em 2019, antes do crescimento explosivo da inteligência artificial, quando Toshio Yoshida – o desenvolvedor principal do Monaka – foi contatado por um grande provedor de serviços em nuvem que perguntou se a Fujitsu poderia desenvolver tecnologia para computação confidencial, que protege dados por meio de criptografia.
Na época, os principais provedores de nuvem enfrentavam preocupações dos clientes com o potencial vazamento de dados sensíveis. Por definição, os administradores de nuvem podiam tecnicamente visualizar os dados dos usuários, mesmo que involuntariamente.
Como resultado, surgiu a demanda por tecnologias capazes de criptografar dados em nível de hardware, inclusive em semicondutores e servidores, afirmou Yoshida.
“Apenas fabricar semicondutores não era suficiente”, disse Yoshida. “Mas se pudéssemos proteger os dados dos clientes usando dispositivos produzidos internamente, isso teria um valor real.”
Hoje, os chamados provedores de nuvem hiperescaláveis — empresas com vastas capacidades de data center — como Amazon Web Services e Google, começaram a projetar seus próprios semicondutores. A Fujitsu não está seguindo um caminho semelhante.
A tecnologia de semicondutores da Fujitsu foi desenvolvida por meio do trabalho da empresa com computadores e dispositivos similares, que remonta a cerca de 1960. Indo ainda mais longe, a tecnologia por trás dos dispositivos de computação teve origem no negócio inicial da empresa, no ramo de equipamentos de telecomunicações.
Foi a Fujitsu que apresentou ao mundo Toshio Ikeda, conhecido como o pai da computação japonesa. A empresa desafiou a gigante americana IBM, considerada a líder incontestável da indústria de computadores. Em 1980, a Fujitsu havia se tornado a principal vendedora no mercado japonês de computadores em termos de valor.
Mas, nos últimos 30 anos, a Fujitsu tem mudado seu foco para serviços de TI, como o desenvolvimento de sistemas empresariais. A empresa abandonou a maior parte de suas operações de hardware. Hoje, esse segmento se limita a produtos de alto valor agregado, como supercomputadores e equipamentos de transmissão óptica.
A Fujitsu tem se destacado como uma alternativa de peso aos gigantes China e EUA no campo da inteligência artificial. Com tecnologias inovadoras e um amplo histórico de experiência, a empresa japonesa tem potencial para revolucionar diversas áreas da nossa sociedade, trazendo benefícios tanto para o setor público quanto privado. O uso da inteligência artificial pode gerar avanços significativos em áreas como saúde, segurança, mobilidade urbana e muitas outras, contribuindo para uma melhor qualidade de vida para todos. Vale a pena refletir sobre como podemos aproveitar ao máximo essas tecnologias e explorar todo o seu potencial para o bem da sociedade. A Fujitsu está abrindo novas possibilidades e cabe a nós, como sociedade, explorar e aproveitar essas oportunidades da melhor forma possível.

