Após 25 anos percorridos do século 21, 16 colunistas de Mercado da Folha foram convidados a apontar o que será tendência na economia do planeta em 2050. O fator mais citado foi o envelhecimento populacional.
Para cinco especialistas, esta será uma das forças disruptivas da economia global daqui a 25 anos. Mesmo que com ênfases distintas, citaram a questão demográfica como uma preocupação real.
“O mundo está avançando na direção de famílias cada vez menores e pessoas tendo filhos cada vez mais tarde, ou simplesmente não tendo”, afirma Michael França, economista pela USP (Universidade de São Paulo) e pesquisador do Insper.
Uma previsão relacionada a isso é a redução acelerada da população economicamente ativa, com escassez de mão de obra, pressão fiscal e necessidade de reconfigurar as estruturas das grandes cidades.
“Serão três os grandes temas que devem ter impacto relevante e podem interagir entre si: mudanças demográficas, com o envelhecimento da população, elevado nível de endividamento público de boa parte dos países e os efeitos crescentes das mudanças climáticas sobre a economia”, diz Bráulio Borges, mestre em economia pela USP, diretor da LCA Consultores e pesquisador-associado do FGV Ibre.
Houve também menções sobre como envelhecimento vai convergir com tecnologia como força para mudar o Brasil e o mundo.
“A convergência entre o envelhecimento populacional e a difusão massiva das novas tecnologias, especialmente a inteligência artificial, será a força estrutural que moldará o Brasil e o mundo até 2050. Mas, diante desse cenário, a variável decisiva seguirá sendo a força das instituições: são elas que determinam se um país consegue transformar tecnologia em produtividade e produtividade em prosperidade”, afirma Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander Brasil.
Colunistas também focaram em como a questão etária trará desafios de arrecadação para o INSS no Brasil e também fará surgir a necessidade de combater uma “solidão estrutural.”
“A tendência dos próximos 25 anos é a questão da solidão estrutural e suas repercussões: queda da natalidade e dependência ainda maior da tecnologia. Estamos mais conectados, mas há menos relações estáveis, menos filhos e as redes de apoio e de convívio se desintegram. A tecnologia vai se apresentar nesse cenário como uma uma falsa solução: automação, robôs e ‘companheiros’ artificiais para suprir falta de pessoas e de cuidado”, afirma Ronaldo Lemos, advogado e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro
“Em 2050, o INSS estará arruinado e algum banco terá privatizado o maior sistema de proteção social do país. O prognóstico pessimista é o pensamento de céticos que não acreditam na sustentabilidade da previdência social, apoiado em argumentos racionais, como: crescimento da pirâmide demográfica, redução de celetistas e expansão da uberização e pejotização”, opina Rômulo Saraiva, advogado, professor e especialista em previdência.
Ana Paula Vescovi não foi a única a mencionar a inteligência artificial, embora tenha citado no contexto do envelhecimento. Para Solange Srour, Roberto Campos Neto e Deborah Bizarria, a IA será ponto central da economia global em 2050.
“O futuro do sistema financeiro será moldado pela convergência de open finance, tokenização, programabilidade do dinheiro e inteligência artificial. Qualquer ativo (imóvel, safra de soja ou recebível de crédito) será tokenizado, fracionado e negociado globalmente em segundos”, afirma Campos Neto, economista, vice-chairman do Nubank e ex-presidente do Banco Central.
Há a defesa da urgência de integrar a população na inteligência artificial, sob o risco de ficar para trás.
“IA será o principal vetor de transformação econômica e social. Vai redefinir o mercado de trabalho, automatizando tarefas cognitivas e deslocando milhões de profissionais, ao mesmo tempo em que criará novas funções. O mundo muito provavelmente será dividido entre quem se complementa com a inteligência artificial e quem será substituído por ela”, afirma Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil da UBS Global Wealth Management.
A economista pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e especialista em gestão pública no Insper, Deborah Bizarria, alerta que, com a expansão da IA, “transparência e responsabilidade deixam de ser atributos morais e viram condição de funcionamento”, num mundo onde faltará confiança, não informação.
A trinca de mudanças mais citadas é completada pelos fenômenos climáticos.
O engenheiro Jerson Kelman prevê que a adaptação às alterações climáticas “induzirá a construção de reservatórios de regularização dos rios, microestações de tratamento de esgoto barateadas e implementadas em escala predial e cidades mais silenciosas graças à eletrificação dos meios de transporte.”
A diretora do FGV-Ceri (Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da FGV), Joisa Dutra, destaca que a severidade dos eventos extremos impulsionará demandas por resiliência, com investimentos que façam sentido econômico, comprovados por análises de custo-benefício e priorizando grupos vulneráveis.
No campo fiscal, o jornalista Eduardo Cucolo projeta que o debate sobre justiça fiscal e eficiência do gasto público se aprofundará, “especialmente no Brasil, diante do diagnóstico de que será difícil reduzir despesas ou impostos sem resolver essas questões”.
A ascensão asiática também recebe atenção. O economista Bernardo Guimarães prevê que economias da Ásia “crescem bastante e vão ficar cada vez mais importantes no cenário mundial”, com cadeias de produção globalizadas apesar do atual momento de protecionismo.
O jornalista Eduardo Sodré ressalta que, no setor automotivo, carros produzidos por montadoras chinesas superarão marcas americanas, alemãs, italianas, francesas, sul-coreanas e japonesas. Os veículos 100% elétricos responderão por 20% a 30% das vendas, e o etanol se fortalecerá como combustível de transição, voltando a ter protagonismo pela combinação com eletricidade em sistemas híbridos.
Professor catedrático convidado na NOVA School of Business and Economics, em Portugal, Rodrigo Tavares oferece visão diversa sobre tecnologia. Após décadas de aceleração tecnológica e desinformação, ele prevê que sociedades buscarão reconstruir humanidade em “pequenas comunidades interligadas” que preservam convivência presencial e confiança. A automação total libertará o trabalho do esforço repetitivo, e o valor passará a residir “naquilo que só o espírito humano pode gerar, como imaginação, empatia, ironia e beleza”.
Sistemas descentralizados de autenticação tornarão fake news obsoletas, com informação auditável em tempo real. “Em 2050 não viveremos em um mundo pós-humano. Viveremos em um mundo reumanizado, tecnicamente sofisticado, filosoficamente consciente e espiritualmente maduro”, projeta.
A economista e professora da FGV, Lorena Hakak, enfatiza investimento contínuo no ensino fundamental, especialmente matemática, para reduzir desigualdades de gênero e raça. Sem essas reformas estruturantes em educação e saúde, além de gestão macroeconômica responsável e maior abertura econômica, “o Brasil corre o risco de permanecer preso à condição de país de renda média”.
O advogado e sócio do Portugal Ribeiro & Jordão Advogados, Mauricio Portugal Ribeiro projeta evolução em contratos de concessão e PPP (Parceria Público-Privada), com desenvolvimento de critérios de renegociação, adoção de diálogos competitivos, consolidação de padrões ESG e criação de obrigações de resiliência climática para concessionários.

