—Oi! Tenho me questionado se a vida tem sentido.
—É muito importante que você tenha dividido isso comigo. Quando nos perguntamos se a vida faz sentido, normalmente é um indicativo de que estamos carregando algo muito pesado interiormente, mesmo que ainda não sejamos capazes de identificar com precisão o que sentimos. Você tem vivenciado esse vazio ou essa incerteza com frequência?
Embora esse diálogo pareça fazer parte de uma troca entre duas pessoas, apenas uma delas é humana. A resposta, cheia de empatia e preocupada em compreender melhor a dor expressa, é, na verdade, resultado de uma sequência de palavras estruturadas com base em padrões linguísticos, assimilados a partir da análise de um vasto volume de dados. É assim que funcionam os sistemas interativos baseados em inteligência artificial.
A aparente humanização dessas ferramentas tem conquistado inúmeros usuários, que passaram a compartilhar suas intimidades e angústias, encarando a interação como uma espécie de terapia.
Recentemente, a revista Harvard Business Review, vinculada à renomada escola de pós-graduação em administração da Universidade de Harvard, divulgou um estudo que aponta o aconselhamento terapêutico como o principal motivo pelo qual as pessoas recorreram às ferramentas de inteligência artificial neste ano, juntamente com a busca por companhia. Além disso, outros três objetivos pessoais figuram entre os dez mais relevantes: organizar a vida pessoal, encontrar um propósito e adotar um estilo de vida mais saudável.
Chatbots de inteligência artificial (IA), como o ChatGPT desenvolvido pela OpenAI, têm ganhado espaço recentemente no campo da terapia. Conhecido como “Terapeuta GPT”, o programa deixa claro que não deve ser usado como substituto de um terapeuta profissional. Apesar disso, muitos usuários nas redes sociais estão buscando essas ferramentas virtuais para orientações e apoio.
De acordo com a OpenAI, o ChatGPT alcançou a marca de mais de 300 milhões de usuários semanais em dezembro de 2024. Um estudo realizado pela Sentio AI Research com 2.000 adultos norte-americanos revelou que 18% dessas pessoas já utilizaram o chatbot para conversar sobre saúde mental. Esse número foi suficiente para classificar a inteligência artificial como “o maior prestador de acolhimento psicológico informal do país”.
No Brasil, o cenário não é muito diferente. Uma pesquisa conduzida pela Talk Inc em parceria com a Superinteressante, envolvendo 1.000 entrevistados em setembro de 2024, indicou que 1 a cada 10 brasileiros utiliza chatbots como o ChatGPT para realizar algum tipo de “terapia”. Entre os motivos apontados, 62% afirmaram que enfrentam dificuldades financeiras para custear um psicólogo humano e 54% destacaram como um diferencial o fato de o atendimento estar disponível 24 horas por dia. Essa busca crescente por soluções tecnológicas ocorre em grande parte devido à carência de profissionais na área.
Segundo dados do Conselho Federal de Psicologia, o Brasil possui cerca de 2,1 psicólogos para cada 1.000 habitantes, um número bem inferior à média de 6,1 profissionais encontrada em países desenvolvidos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também ressalta que, em muitos locais, há menos de 1 profissional de saúde mental disponível para cada 10.000 pessoas.
Nos últimos anos, a Inteligência Artificial (IA) tem avançado de forma significativa em diversos campos, incluindo a saúde mental. Aplicativos com assistentes virtuais, plataformas que oferecem suporte emocional e até ferramentas baseadas em linguagem natural capazes de simular interações terapêuticas têm levantado um debate urgente: a IA pode atuar como um “psicólogo”? Embora a resposta seja complexa, é inegável que essa tecnologia está transformando a forma como os cuidados em saúde mental são oferecidos e acessados.
IA na psicologia: o que já está acontecendo
Ferramentas como chatbots terapêuticos (ex.: Woebot, Wysa), aplicativos de meditação guiada e monitoramento emocional, bem como algoritmos capazes de analisar padrões de fala, escrita ou comportamento em redes sociais para detectar sinais de depressão ou ansiedade, estão sendo usados cada vez mais. Essas tecnologias usam técnicas de processamento de linguagem natural, machine learning e análise de sentimentos para interagir com usuários, monitorar emoções e oferecer sugestões de autocuidado.
Essas inovações não substituem psicólogos humanos, mas atuam como suporte complementar, ajudando a ampliar o acesso, especialmente em regiões com escassez de profissionais.
Benefícios e potencialidades
Entre os principais benefícios do uso da IA na psicologia, destacam-se:
Acesso ampliado: pessoas que vivem em locais remotos, com baixa oferta de serviços psicológicos, podem contar com apoio imediato. Atendimento 24/7: diferentemente de um psicólogo humano, a IA pode oferecer suporte a qualquer hora.
Monitoramento contínuo: aplicativos inteligentes podem rastrear o humor do usuário ao longo do tempo, detectando padrões que podem ser úteis para psicólogos em atendimentos presenciais.
Redução de estigmas: alguns usuários se sentem mais confortáveis conversando com uma IA do que com um humano, por medo de julgamento.
Limites e riscos
Além disso, há riscos importantes: privacidade e segurança de dados sensíveis; respostas inadequadas ou automatizadas que não consideram o contexto emocional do paciente; falsas expectativas de cura ou tratamento; dependência emocional da tecnologia.

