Tanto se tem falado em Inteligência Artificial (IA) que fui buscar referências sobre sua possível participação como conselheira em conselhos de administração. Descobri que, em 2014, a Deep Knowledge Ventures (DKV), fundo de capital de risco de Hong Kong especializado em biotecnologia e medicina regenerativa, anunciou a nomeação do VITAL (sigla para Validating Investment Tool for Advancing Life Sciences) como membro honorário de seu conselho de administração.
O VITAL era um software de IA baseado em aprendizado de máquina, projetado para analisar grandes volumes de dados e identificar tendências de mercado que poderiam não ser imediatamente perceptíveis aos seres humanos. Como membro do conselho, auxiliava na tomada de decisões de investimento, analisando informações como patentes, resultados de ensaios clínicos, rodadas de financiamento e dados financeiros, com o objetivo de prever o sucesso de empresas de biotecnologia.
Um detalhe que chamou atenção à época: o VITAL foi tratado como membro do conselho, com direito a voto. Seu mandato durou até 2017. Alguns especialistas consideraram o experimento mais uma ação de marketing da DKV do que propriamente uma inovação estrutural de governança.
Esse caso nos leva à pergunta central: a IA pode assumir formalmente uma posição de conselheira?
Na maioria das legislações societárias do mundo, conselheiros precisam ser pessoas físicas, com capacidade civil e sujeitas a deveres fiduciários — diligência, lealdade e dever de informar — além de responsabilização civil e criminal. No Brasil, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a Lei das S.A. (Lei nº 6.404/76) pressupõem conselheiros humanos. Portanto, juridicamente, a IA não pode ocupar o cargo.
Mas então, o que a IA pode fazer nos conselhos?
Pode ser uma poderosa ferramenta estratégica de apoio à decisão. Entre suas aplicações práticas, destacam-se:
- Analisar grandes volumes de dados financeiros, operacionais e de mercado em tempo real;
- Simular cenários estratégicos;
- Identificar riscos ocultos ou padrões não evidentes;
- Detectar possíveis fraudes;
- Avaliar desempenho empresarial com cruzamento de dados e benchmarking;
- Identificar gargalos operacionais;
- Analisar atas e documentos para apontar inconsistências;
- Automatizar relatórios;
- Monitorar movimentos de concorrentes e operações de fusões e aquisições.
Por outro lado, é igualmente importante compreender o que a IA ainda não faz — mesmo com avanços diários: não assume responsabilidade fiduciária, não substitui o julgamento ético humano, não compreende nuances políticas internas e não possui accountability legal.
Conselhos lidam com reputação, cultura, poder e confiança — elementos essenciais e profundamente humanos. Outro ponto sensível é o sigilo. O uso de IA exige atenção redobrada quanto à proteção de dados estratégicos da empresa. A ferramenta pode ampliar a capacidade analítica, reduzir a assimetria de informações, melhorar a supervisão de riscos e dar mais produtividade à elaboração de pautas e atas. Contudo, permanece sendo uma ferramenta. Ela não substitui nem atenua a responsabilidade das pessoas pelas decisões tomadas.
As melhores práticas de governança exigem que os conselhos saibam utilizar a IA com critério, preservando confidencialidade e senso crítico.
Um lembrete final: cuidado para que a IA não se torne a porta de saída das informações estratégicas da empresa e das decisões tomadas em conselho.
A Inteligência Artificial pode desempenhar um papel crucial como conselheira em diversos setores da sociedade, incluindo o público. Com mais de 16 anos como servidor público, posso afirmar que a IA possui o potencial de oferecer insights valiosos e análises precisas para tomadas de decisão mais eficazes. Nos conselhos, a IA pode auxiliar na identificação de tendências, na previsão de cenários e na otimização de processos, contribuindo para uma gestão mais eficiente e transparente.
É essencial explorar o uso da Inteligência Artificial de forma ética e responsável, garantindo que os algoritmos sejam imparciais e transparentes. Ao aproveitar o poder da IA, podemos obter benefícios significativos para a sociedade, promovendo uma melhor qualidade de vida e um desenvolvimento sustentável. Afinal, a tecnologia está em constante evolução e cabe a cada um de nós refletir sobre como podemos aproveitá-la da melhor forma. Afinal, como a Inteligência Artificial pode transformar os conselhos e melhorar a sociedade? A resposta está em nossas mãos.


