O coordenador e um dos autores do estudo “Impacto da IA Generativa no acesso a jornais” Pedro Pais diz à Lusa que a funcionalidade de sumarização de notícias pode estar a impactar o acesso aos jornais.
Esta é uma das conclusões do estudo que o OberCom acaba de publicar – “Impacto da IA [inteligência artificial] Generativa no acesso a jornais: Tendências e análise de pesquisa de notícias em Portugal” -, com o investigador a considerar que as empresas de media devem criar estratégias e monitorizar o impacto da sumarização.
Este relatório “surgiu um pouco na ideia de como é que podíamos ajudar os jornais, nomeadamente a tentar perceber qual é que é o impacto da inteligência artificial [IA] generativa especificamente no acesso a jornais”, enquadra o investigador.
“O que nós verificamos é que cada vez mais pessoas estão a pedir sumarizações de notícias, ou mesmo não pedindo, estão a receber sumarizações de notícias” e “que isso estará eventualmente a impactar, de facto, esse acesso aos jornais“, salienta.
“Diria que uma das primeiras conclusões é que – não existindo propriamente artigos científicos que ainda o comprovem, no sentido em que é um fenómeno bastante recente -, parece existir, de facto, cada vez mais impacto da inteligência artificial generativa nesse acesso a jornais”, diz.
Ou seja, “cada vez mais pessoas estão a receber esse tipo de sumarizações e o que é que acontece é que, em vez de irem aos jornais explorar a notícia, explorar outro tipo de notícias, recebem essa sumarização e existe, provavelmente, uma certa suficiência noticiosa que os fazem ou não clicar em links noticiosos para depois ver a notícia de forma mais detalhada ou sequer a não ir ao website de jornais”, aponta Pedro Pais.
No que respeita à IA com a qual se lida, há o ChatGPT ou o Gemini, que são “plataformas em que nós recorremos” de forma voluntária e onde se pode pedir notícias, “que foi o que nós fizemos: quais é que são as principais notícias do dia? Ou então, especificamente sobre o tema do Elevador da Glória, que notícias é que surgem sobre este tema”, relata.
Só que depois existem outras plataformas como o AI Overview e o AI Mode da Google, que “são menos voluntárias”, sublinha o coautor do estudo.
O AI Overview “é particular porque nós pomos qualquer coisa num motor de busca da Google, que é algo (…) tradicional (…) e surge-nos já um resumo de inteligência artificial, ou seja, é algo involuntário” e “não posso desativar, não posso fazer nada e recebo uma notícia sobre isso”, já sumarizada, “que me pode satisfazer e, portanto, também não vou aceder a jornais por causa, a website de jornais por causa disso”.
Já o AI Mode “é uma espécie de meio caminho entre este AI Overview, que é completamente involuntário, e as outras plataformas, tipo o ChatGPT”.
Este é um “novo fenómneno” no sentido em que este tipo de IA mais involuntária “pode causar um impacto ainda maior nesse não acesso a jornais e é essencialmente isso que as empresas, nomeadamente no Reino Unido, nos Estados Unidos, se têm queixado”.
Ou seja, “este tipo de inteligência artificial involuntária, que está no nosso dia a dia, da qual já não podemos propriamente distinguir da normal quase e que está a impactar nos jornais”.
A última conclusão diz respeito às empresas e o que pode ser feito: “a conclusão mais prática seria mesmo uma monitorização, dentro do possível, do tipo de impacto que isto pode estar a ter ou não”.
Ou seja, “monitorização mesmo de as pessoas que acedem aos jornais, o que é que tem acontecido, por exemplo, no último ano, nomeadamente desde o surgimento da AI Overview”, tentar perceber o que se passa “e depois ter também estratégias em conformidade”.
Estratégias que podem passar pela adoção de uma espécie de slow journalism, que não são apenas reportagens mais profundas, mas também uma maior ligação ao próprio leitor/utilizador, com notícias mais detalhadas.
“Enfim, existe toda uma série de possíveis estratégias, até mesmo comunitariamente, uma ligação mais direta, por exemplo, através do WhatsApp, por parte das empresas, uma forma de tentar, seja através da escrita, seja através de uma relação mais direta com o leitor (…) tornar inútil aquela sumarização” da IA, fazendo com que o leitor “queira ver a notícia pela notícia em si”, remata.
O coordenador do estudo, Pedro Pais, considera ainda que a literacia deve passar por explicar às pessoas o ecossistema em que os media vivem.
O investigador considera que a literacia é sempre necessária, mas “é um dos aspetos da literatura ainda parca que existe deste tipo de fenómenos”.
No caso de sumarização de notícias, “o estilo de escrita de facto passa por o de um jornalista, com facilidade, e cada vez mais”, refere o académico.
Portanto, “no caso das sumarizações, nem sequer vamos a uma notícia integral, no caso das sumarizações isso pode ser mais evidente: o facto de eu estar a ler uma sumarização de uma notícia e parecer ser de facto um jornalista a escrevê-lo”, prossegue o responsável.
“Isso tem implicações, nomeadamente na população geral, já para não dizer decisores políticos ou os próprios jornalistas, mas mesmo do ponto de vista da população geral, naturalmente se uma notícia passa por ser escrita por uma pessoa verdadeira tem de existir de algum modo formas de desenvolver essa literacia”, acrescenta o investigador.
A literacia “pode não ser necessariamente só do género de estou identificar dois textos e este é o de inteligência artificial e este é o de um humano, até porque há estudos que apontam que os próprios jornalistas muitas vezes não conseguem identificar a diferença“, sublinha, referindo que “existe muito essa similitude”.
“Mas a literacia pode ser do ponto de vista de explicar às pessoas, desde logo, o tipo de ambiente e ecossistema em que estamos envolvidos neste momento, ou seja, dizer-lhes existe esta inteligência artificial, existe esta inteligência artificial generativa, uma que é voluntária, tipo ChatGPT, outra que é involuntária, tipo AI Overview [funcionalidade da Google], que nos aparece de repente”, aponta.
“E explicar que muitas vezes essa sumarização de notícias, esse não acesso a links, pode ter de facto um impacto importante ou relevante nos jornais porque se as pessoas não acederem em jornais” isso terá impacto na publicidade, por exemplo.
Portanto, “são aspetos económicos ou financeiros importantes que as pessoas muitas vezes não têm noção”, refere um dos coordenadores e autores do estudo.
Ou seja, as pessoas “não têm noção do impacto que fazem só a receber a sumarização de uma notícia e não ir a jornais”.
Esta é uma “das formas de literacia”, a qual já era importante ainda antes do digital, salienta.
É preciso “explicar o próprio ecossistema em que estamos envolvidos” porque por tudo isto “ser recente é uma coisa que nós estamos continuamente a aprender o que é que está a acontecer”, remata.
O objetivo da análise foi explorar, dentro da realidade portuguesa, de que modo as notícias de destaque de um determinado dia são apresentadas em três espaços: ChatGPT, Gemini e o motor de busca da Google, refere o relatório.
A recolha de dados foi efetuada no dia 10 de setembro de 2025. Ao todo, participaram na investigação 10 utilizadores, de contas separadas, e foram feitas 78 pesquisas.

