Durante anos, fotos foram a principal prova em disputas entre clientes e aplicativos de entrega. Bastava registrar um prato amassado ou um ingrediente errado para justificar um reembolso. Agora, essa lógica está sendo colocada à prova. Em Londres, a popularização de ferramentas de inteligência artificial abriu caminho para um tipo de fraude difícil de detectar — e que ameaça tanto plataformas quanto restaurantes parceiros.
Quando a imagem deixa de ser prova

A pergunta parece trivial: como comprovar que um pedido realmente chegou estragado? Até pouco tempo atrás, a resposta era simples. Uma foto enviada pelo cliente geralmente bastava. Esse sistema, pensado para agilizar o atendimento e evitar atritos, virou o elo fraco explorado por golpistas.
Relatos recentes indicam que usuários em Londres passaram a usar IA para adulterar imagens de refeições. Com poucos comandos, um hambúrguer pode parecer cru demais, um bolo pode “derreter” digitalmente e até insetos podem ser adicionados sobre o prato. O objetivo é sempre o mesmo: simular um problema inexistente e obter reembolso.
Ferramentas de geração e edição de imagens tornaram esse processo rápido e acessível. O resultado são evidências visuais convincentes o suficiente para enganar análises rápidas feitas por sistemas automatizados de atendimento ao cliente.
Plataformas vulneráveis e respostas limitadas
Aplicativos como Uber Eats e DoorDash baseiam boa parte de seus reembolsos em confiança e volume. Investigar cada reclamação a fundo encarece a operação e atrasa respostas. Por isso, muitos pedidos acabam sendo aceitos quase automaticamente.
Reportagens do The Times destacaram como essas imagens manipuladas se tornaram difíceis de diferenciar de fotos reais. Já o The Washington Post procurou as plataformas para entender como ocorre a checagem, mas não obteve detalhes públicos sobre os critérios técnicos usados para validar as reclamações.
Na prática, o prejuízo raramente recai sobre o usuário fraudador. Quem paga a conta, muitas vezes, são os restaurantes parceiros, que veem margens já apertadas serem corroídas por reembolsos indevidos.
Golpes exibidos sem pudor nas redes sociais
O que mais preocupa empresas e comerciantes é a naturalização desse comportamento. Em redes sociais, alguns autores das fraudes exibem as edições como troféus. Um usuário publicou a imagem de um hambúrguer adulterado digitalmente para parecer perigoso ao consumo, comemorando o dinheiro devolvido. Em outro caso, relatado no Threads, um usuário contou ter modificado uma foto de frango no Photoshop e recebido mais de 26 dólares de volta após um pedido de desculpas do suporte.
As reações foram imediatas. Muitos comentários apontaram que o golpe não atinge grandes corporações, mas pequenos restaurantes. Outros lembraram que se trata de crime tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos, mesmo quando disfarçado de “esperteza digital”.
Apesar da reprovação moral, especialistas alertam que o incentivo permanece. Enquanto sistemas automatizados aceitarem imagens como prova definitiva, a tentação de repetir o golpe continuará existindo.
A fraude não vem só do lado do cliente
O problema não se limita aos consumidores. Há relatos recentes de entregadores usando imagens geradas por IA como suposta prova de entrega correta. Em um caso citado por usuários, um motorista da DoorDash teria enviado uma imagem artificial para justificar um pedido “entregue”, apesar de o cliente nunca ter recebido a comida.
Embora esse tipo de fraude ainda seja menos comum, ele revela uma vulnerabilidade estrutural: a dependência excessiva de imagens em ambientes digitais onde a autenticidade está cada vez mais difícil de garantir.
O futuro da verificação em um mundo de imagens falsas
O cenário tende a se tornar ainda mais complexo. Um estudo publicado na revista Royal Society Open Science mostrou que pessoas sem treinamento específico têm grande dificuldade para distinguir imagens reais de rostos humanos gerados por IA. Se isso já acontece com pessoas, diferenciar uma refeição real de uma fabricada digitalmente pode se tornar um desafio ainda maior.
Para aplicativos de entrega, o dilema é claro: endurecer a checagem pode gerar atrito com clientes honestos; manter o sistema atual abre espaço para abusos crescentes. Algumas empresas estudam combinar imagens com outros dados, como histórico do usuário, padrões de reclamação e até análise automática de inconsistências visuais.
Enquanto isso, restaurantes seguem pressionados por um problema que não criaram. A fraude alimentar digital mostra como a inteligência artificial, quando usada de forma maliciosa, transforma pequenos atalhos em prejuízos coletivos — e coloca em xeque a confiança que sustenta boa parte da economia sob demanda.
[Fonte: Revista PEGN]
