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Como implementar a inteligência artificial para aprendizado através de perguntas ao invés de respostas

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Imagem criada por inteligência artificial / Ilustração
Mulher conversa com menina sobre lição de matemática.

Era quarta-feira à noite quando Laura sentou ao lado da filha de dez anos para ajudar com o dever de matemática: operações com frações. A menina encarava o caderno como quem olha um enigma escrito em uma língua morta. Laura explicou uma vez, explicou de novo, desenhou pizza, chocolate e barra de cereal. Na quarta tentativa, a explicação já subia um tom, naquele registro de voz que todo pai e mãe conhece e sempre jura, de pé junto, que não está usando. A filha, com os olhos marejados, já não ouvia mais nada; o canal de comunicação tinha sido bloqueado pelo ruído do cansaço.

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O problema ali não era a conta, era o método. Quanto mais Laura explicava, menos a menina entendia, justamente porque o entendimento real não é um ato de recepção passiva, mas um processo de descoberta ativa. Laura respirou fundo, contou até três (mentira, contou até dois) e decidiu tentar algo diferente. Abriu uma janela de inteligência artificial e escreveu: “Não estou conseguindo ensinar operações de frações para a minha filha. Avalie essas atividades e me dê três perguntas que eu possa fazer para ajudá-la a descobrir a lógica sozinha, sem entregar o ouro.”

A IA sugeriu o básico que resolve: “Se você dividir uma pizza em quatro pedaços e comer um, quanto sobra? E se a pizza tivesse oito pedaços e você comesse dois, seria mais ou menos pizza?” Laura fez as perguntas. A filha pensou, errou, bufou, pensou de novo… Fez aquela cara de quem está no limite entre desistir e brilhar. Pensou mais um pouco. E então, sem que ninguém tivesse soprado a resposta, a ficha caiu.

A maioria de nós usa a inteligência artificial como um oráculo de respostas prontas, mas o seu uso mais sofisticado é exatamente o oposto: o de pedir perguntas. Não há nada de novo aqui em termos de pedagogia; Sócrates já fazia isso no mercado de Atenas há dois mil e quatrocentos anos, fustigando seus alunos com interrogações que os obrigavam a parir o próprio conhecimento. O drama é que o método socrático exige tempo, uma paciência de monge tibetano e um interlocutor disponível — três coisas raríssimas após um dia intenso de trabalho e trânsito sem fim na Avenida Ipiranga.

A IA oferece justamente essa infraestrutura emocional e cognitiva que nos falta: ela não se cansa, não se irrita com a repetição e não olha para o relógio com pressa de terminar. Ela pode ser convocada às nove da noite, em um “momento mágico” em que a criança subitamente se lembra que a lição de casa existe.

Vale o parêntese: esta série “IA de bolso” é menos sobre tecnologia e muito mais sobre como recuperar nossa capacidade de aprender. A IA entra aqui como entra um liquidificador na cozinha brasileira: ela não muda a receita do bolo de milho e não substitui o cozinheiro, mas é o utensílio que nos salva quando a energia e o tempo estão no osso. Não é magia, é tecnologia. É recurso.

Na prática, o gesto é simples:

Para ajudar um filho: “Ele está travado em [assunto]. Me dê perguntas que o guiem em um passo a passo bem didático até a resposta.”

Para si mesmo: “Estou tentando aprender sobre [tema]. Em vez de me explicar, me faça perguntas progressivas que me ajudem a desatar o nó no meu entendimento.”

Para testar o domínio: “Acabei de estudar [conceito]. Me faça três perguntas que revelem se eu entendi a lógica ou se apenas decorei o texto.”

O efeito é contraintuitivo e exige resistir à pressa. Parece mais lento, afinal, a resposta está a um clique de distância, mas a resposta dada costuma evaporar em minutos, enquanto a resposta descoberta cria raízes. É a diferença entre copiar um endereço no GPS e aprender o caminho de tanto errar a rua e perguntar na padaria da esquina; no segundo caso, o mapa passa a morar dentro de você.

Quando a criança erra, recalcula e finalmente acerta, ela ganha algo que não aparece no boletim: a autonomia. Em um país onde o acesso a reforço escolar de qualidade é um privilégio, esse uso da IA pode ser um gerador de confiança democrático e poderoso. Para os pais (e até para professores), o ganho é a paz de espírito. Ao perguntar em vez de explicar, você deixa de ser o carrasco da gramática ou da matemática e assume o papel de mediador curioso. Pensar junto, no fim das contas, é uma forma muito mais bonita de convivência do que simplesmente dar ordens.

E a Laura? Algumas semanas depois, a nota da prova foi boa, mas o que ficou guardado foi o brilho nos olhos da filha ao dizer: “Ah, agora eu entendi”. Ninguém tinha dado a resposta. Ela tinha encontrado o caminho sozinha, e a IA foi uma lanterna que ajudou a iluminar a trilha.

“Meu filho está travado em [assunto]. Não me dê a explicação. Me dê cinco perguntas, da mais fácil à mais difícil, que eu possa fazer para ajudá-lo a descobrir a lógica sozinho. Depois de cada pergunta, me diga o que observar na resposta dele para saber se posso avançar ou se devo mudar o exemplo.”

Na próxima coluna: a IA como espelho de Feynman: usando a tecnologia para descobrir o que você ainda não entendeu.

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