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Congresso dos Jornalistas discute condições de trabalho e influência da Inteligência Artificial no jornalismo

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O terceiro dia do 40° Congresso Nacional dos Jornalistas (sexta, 12) teve início com dois painéis que debateram a precarização das condições de trabalho dos jornalistas, as diferentes formas de fraudes contratuais e os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho. O evento acontece de 10 a 13 de dezembro, no Sebrae Asa Norte, em Brasília (DF) e reúne mais de 170 jornalistas e estudantes de jornalismo de todo o país.

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PJ, MEI ou CLT: quem te defende somos nós!
Por Bárbara Benício, com supervisão de Renata Maffezoli

O painel 3 foi iniciado pela advogada trabalhista Maria Luiza Pimentel, do escritório Lecir Luz & Wilson Sahade Advogados, que explicou como funcionam as contratações de PJ, MEI e CLT. Ela mostrou que, muitas vezes, para os jornalistas contratados como PJ é prometido uma utopia que, na realidade, não se compara à facilidade e condições de trabalho do CLT. 

“Até que ponto compensa para a gente e qual é o tipo de contratação que mais atende a nossa necessidade?”, provocou a advogada, lembrando que a “Pejotização”não garante qualquer direito aos trabalhadores. Maria Luisa reforçou que é fundamental que os jornalistas conheçam seus direitos e reivindiquem uma maior valorização das relações de trabalho.maria

O debate teve continuidade com a apresentação de Fernanda Gama, secretária de Mobilização, Negociação Salarial e Direito Autoral da FENAJ e presidenta do Sindicato dos Jornalistas da Bahia. A jornalista contou que a FENAJ ajuda, também, os jornalistas que são contratados na modalidade de pessoa jurídica (PJs), desmistificando a ideia de que somente os jornalistas CLTs podem contar com a ajuda dos sindicatos e da FENAJ. “A forma que você é contratado muda tudo, mas a forma como você é defendido não muda”, afirmou.

Fernanda denunciou a “pejotização” (contratação via PJ) como uma armadilha e fraude trabalhista, que retira direitos básicos, como férias e previdência, mantendo a subordinação do trabalhador. A mensagem foi direta: jornalista é trabalhador e exige respeito à CLT.fernanda

A jornalista reforçou que é preciso ampliar a unidade da categoria para que a realidade mude. “A gente vive no avanço rápido da precarização da nossa profissão”, ressaltou. O painel continuou com Fernanda apresentando a Campanha Salarial Nacional Unificada dos Jornalistas de 2026, com o mote “A notícia vale, mas quem produz também!”. Ela ressaltou que a categoria e os sindicatos de base da FENAJ devem atuar em conjunto pela valorização dos jornalistas e na luta por melhores salários. ˜Nós precisamos ser respeitados, nós precisamos ser valorizados!”, reforçou a jornalista. 

A diretora da FENAJ afirmou que o objetivo é construir uma campanha nacional verdadeira unificada, para que os jornalistas sejam vistos como trabalhadores e não como alguém prestando um favor à sociedade e que valorizar o jornalismo é defender o Brasil e sua democracia.

˜Salários justos, condições dignas e respeito é o que a campanha de 2026 mais pede, já que precarizar o jornalismo é silenciar a informação˜, destacou. Fernanda finalizou apresentando a bandeira da nova campanha.bandeira

Perspectiva sobre a Inteligência Artificial no jornalismo
Por Isabela Torquato e Mariana Lumy, com supervisão de Renata Maffezoli

O avanço de tecnologias de inteligência artificial no campo jornalístico, os impactos no mercado de trabalho e desafios para a regulamentação foram tópicos principais do quarto e último painel do 40° Congresso Nacional dos Jornalistas, organizado pela FENAJ.

Participaram do debate Atahualpa Blanchet, pesquisador da USP; Deisy Feitosa, professora de jornalismo na Cásper Líbero; Jacks Andrade, professor de jornalismo na UNIFAP e Luizianne Lins, professora e deputada federal pelo PT/CE. 

Atahualpa Blanchet participou remotamente e abriu o debate traçando um histórico sobre o futuro do trabalho e situando a emergência da IA generativa no contexto de agendas internacionais. Blanchet, que acompanha o tema desde 2014, destacou a mudança de foco do debate, do paradigma da automação mecânica para os efeitos da IA em atividades intelectuais. Ele destacou três macrotendências que orientam o impacto da tecnologia no trabalho: deslocamento de mão de obra, requalificação e “plataformização” das relações laborais. “A OIT já tem apontado que em torno de 25% dos empregos globais tendem a ser impactados pela inteligência artificial generativa”, disse Blanchet, acrescentando que, na América Latina, a estimativa sobe para cerca de 35%.atha

Blanchet também chamou a atenção para a gestão algorítmica nas empresas, apontando haver um controle cada vez maior, seja no trabalho presencial ou no trabalho remoto, por meio de ferramentas algorítmicas e uma grande opacidade com relação aos critérios de monitoramento. Ele destacou ainda exemplos de negociações coletivas que introduziram salvaguardas, como cláusulas que limitam usos de dados biométricos e exigem diálogo com as categorias antes da implementação de ferramentas. Blanchet reforçou a necessidade das entidades sindicais atuarem na proteção coletiva, com a inserção de cláusulas nas convenções e acordos. ˜Sem mobilização, não há garantias efetivas contra abusos no uso das tecnologias˜, afirmou.

Em continuidade, a jornalista, professora e pesquisadora Deisy Feitosa contribuiu com o destaque à importância do trabalho jornalístico, destacando a necessidade de potencializar o trabalho do jornalista, com ferramentas de automatização. O atual cenário de polarização política e de crescente desinformação, para a profissional, evidencia a importância do trabalho profissional jornalístico, com checagem de informações de maneira ética.

Como professora, Deisy Feitosa vê a importância da inclusão de jovens em debates e a importância do letramento digital, uma vez que existe a necessidade do diálogo intergeracional e em acordo com as novas tecnologias. “A gente precisa discutir o nosso futuro, os estudantes têm tido essa preocupação. […] Quando a gente luta pela nossa profissão, a sociedade ganha com isso. Tem que começar daqui: pelos jovens, por nós e pelo diálogo intergeracional”, completou.

Na sequência, Jacks Andrade abordou a relação entre formação acadêmica e os desafios trazidos pela IA para a prática jornalística. O professor do curso de Jornalismo da UNIFAP e pesquisador em Educação e Tecnologia, ressaltou a importância de aproximar universidades e sindicatos e de recuperar o engajamento dos estudantes com a profissão. “Lembro da emoção que eu senti no primeiro congresso de jornalistas que eu participei, ainda enquanto estudante de jornalismo. E a gente precisa resgatar isso nos nossos estudantes”, afirmou.

Jacks apresentou dados recentes sobre a adoção de IA no Brasil e ressaltou que muitos usos são inconscientes. Segundo ele, cerca de 32% dos usuários de internet declaram uso consciente de IA, mas o número real é maior quando se considera respostas automatizadas presentes em buscadores, por exemplo. Ele alertou para efeitos na audiência e na apuração jornalística e defendeu um letramento crítico sobre o tema. “A tecnologia não pode ser vista como neutra”, afirmou. Jacks enfatizou riscos práticos da manipulação de conteúdo e da confiança em evidências digitais.

Ao discutir ética profissional, Jacks recordou o Código de Ética dos Jornalistas e a responsabilização por informações publicadas. O professor defendeu que redações e universidades promovam práticas de verificação e que o público seja informado quando conteúdos tiverem intervenção de sistemas automatizados.plateiapainel4

Luzianne Lins, jornalista, professora e deputada federal pelo PT/CE, também contribuiu com o painel, trazendo um panorama sobre a regulamentação e expectativas acerca da IA na comunicação. A deputada reiterou a necessidade de revisão e supervisão humana em produtos de IA, destacando o processo de alucinações dessas tecnologias.

A parlamentar também destacou a formação dos profissionais em novas tecnologias e trouxe foco aos estudantes e jovens profissionais, defendendo o letramento digital, principalmente com o uso consciente de inteligências artificiais. “Não podemos nos apoiar a uma perspectiva determinista, a mobilização dos jornalistas é fundamental”, afirmou, ressaltando a importância da regulação da IA, para proteção da categoria e de toda a sociedade.

O painel encerrou com convergência sobre a necessidade de incorporar temas como transparência algorítmica, requalificação profissional e cláusulas de negociação coletiva nas pautas sindicais e nas rotinas das redações. Os debatedores colocaram-se à disposição para aprofundar o diálogo e apontaram para a relevância de combinar formação, diálogo social e regulamentação para mitigar riscos e preservar condições de trabalho no jornalismo.

O Congresso conta com o patrocínio da Caixa, Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), Banco do Nordeste (BNB) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), além do apoio da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), Associação dos Docentes da UnB (Adunb), Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital (Fenafisco), Sindicato dos Fazendários do Ceará (Sintaf-CE), Sindicato dos Bancários do DF e Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes).

Fotos: Mário Agra

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