Imagine acordar e descobrir que uma imagem sua, sem roupa, está circulando na internet — mesmo que você nunca tenha tirado aquela foto. Situações como essa, que antes pareciam coisa de filme, estão se tornando realidade com o avanço da inteligência artificial.
O alerta ganhou força após imagens falsas, de cunho erótico, atribuídas à princesa de Gales começarem a circular nas redes sociais. As montagens teriam sido criadas com o uso de inteligência artificial, reacendendo o debate sobre os riscos da tecnologia e os impactos na vida das vítimas.
A professora e especialista em ensino de ciências e tecnologias digitais, Maria das Graças Cleofas, explica como a inteligência artificial consegue criar imagens falsas de nudez a partir de rostos reais.
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“Essas imagens falsas de cunho sexual, chamadas de deepnudes, surgem quando sistemas de IA são treinados com muitas fotos de corpos e rostos, aprendendo detalhes de pele, luz, sombra e expressão facial. Depois, a máquina consegue ‘despir’, digitalmente, alguém. Ela pega uma foto comum, geralmente das redes sociais, e encaixa o rosto dessa pessoa em um corpo nu inventado ou retirado de outra imagem, ajustando tudo para parecer natural, embora seja totalmente falso e feito sem consentimento.”
Segundo a especialista, identificar esse tipo de conteúdo nem sempre é simples, mas alguns sinais podem ajudar a levantar suspeitas.
“É muito importante saber que hoje é difícil ter certeza, mas alguns sinais ajudam a desconfiar de uma imagem gerada por IA, como mãos e dedos estranhos, pele perfeita demais, borrões em tatuagens, joias ou no fundo da imagem, além de expressões faciais meio duras. Mesmo assim, a tecnologia está tão sofisticada que, em muitos casos, só uma perícia especializada consegue comprovar a montagem. Por isso, qualquer suspeita deve ser levada a canais oficiais de denúncia e de apoio.”
Casos de pessoas que têm imagens recriadas com teor sexual por meio de inteligência artificial são mais comuns do que parecem. Em junho do ano passado, estudantes de um colégio da capital mineira passaram a gerar nudes falsos de colegas da escola, o que gerou ampla repercussão.
Medidas legais
O advogado e especialista em direito digital Alexandre Atheniense explica quais são os direitos das vítimas e quais medidas legais podem ser adotadas.
“O ato de despir pessoas com o uso da inteligência artificial na internet é crime no Brasil, e já temos pelo menos duas leis que tratam desse assunto. Esse tipo de prática causa violência psicológica contra a mulher e é ainda mais grave quando a vítima é menor de 18 anos. É importante dizer que esse ato tem dupla repercussão na legislação brasileira: a vítima pode buscar a punição do autor, embora isso nem sempre seja simples, e também pode recorrer ao Marco Civil da Internet para a remoção do conteúdo.”
Um estudo recente aponta a dimensão do problema. Em apenas 24 horas, o Grok, robô de inteligência artificial utilizado na rede social X, do empresário Elon Musk, teria gerado cerca de 6.700 imagens por hora classificadas como sexualmente sugestivas ou de nudez, segundo levantamento de uma empresa de consultoria especializada no setor.

