A inteligência artificial vai substituir o médico? Sim… Não… Calma!
Essa é uma dúvida que tem sido levantada com frequência entre colegas de profissão, e com várias respostas possíveis. Mas a discussão não é tão simples e talvez ainda estejamos fazendo a pergunta errada.
A conversa não deveria ser sobre imaginar um futuro em que as ferramentas de inteligência artificial ocupem ou não o nosso lugar, mas sobre aprofundar como podemos ampliar as competências para conseguir continuar oferecendo, mesmo em um ambiente médico mediado por tecnologias, um cuidado de humano para humano.
Estudos já vêm demonstrando que os sistemas de aprendizado profundo conseguem identificar sinais de retinopatia diabética, diferenciar tipos de câncer de pele e até detectar metástases em exames de imagem com níveis de precisão comparáveis aos de especialistas. Em alguns casos, por exemplo, chegam a superar radiologistas na leitura de radiografias de tórax.
Ao mesmo tempo, essas ferramentas tão avançadas em algumas áreas ainda têm limitações em aspectos mais gerais, como vieses de dados, dificuldade de generalização entre diferentes populações e em contextualizar informações de forma integrada, como nós, médicos, fazemos ao relacionar ciência, experiência e a individualidade de cada paciente durante um atendimento.
E é nesse contraste entre realização de tarefas tão especializadas e dificuldades em outras de aspectos gerais que devemos focar um pouco da atenção nas tecnologias que vem dividindo espaço com os médicos.

Generalistas vs. Especialistas
Um editorial do NEJM AI destacou há pouco tempo que as ferramentas e inteligência artificial na área médica já alcançam desempenho equivalente ou superior aos médicos especialistas em algumas tarefas, como realizar a interpretação de eletroencefalogramas por neurologistas, ou de eletrocardiogramas e ecocardiogramas por cardiologistas. Essas mesmas ferramentas têm demonstrado progresso mais lento para alcançar um desempenho equivalente fora de ambientes altamente controlados.
As atividades na área da saúde que apresentam padrões definidos, reprodutibilidade e bases de dados mais completas acabam favorecendo o treinamento e validação dos modelos de linguagem. Já a prática clínica generalista é marcada por variáveis como expressões faciais, entonação da fala, contexto social e emocional, podem escapar dos registros.
Chamada de paradoxo generalista-especialista da inteligência artificial médica, essas diferenças de desempenho de nível especializado em tarefas especializadas, mas apenas desempenho razoável em tarefas médicas gerais começam a incentivar discussões sobre suas implicações para a formação e a prática médica.
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Formação médica
Com a inteligência artificial tendendo a assumir mais tarefas técnicas de determinadas especialidades, o médico passa a precisar de formação que vá além do domínio estritamente técnico. Isso inclui conhecimento médico amplo e também habilidades de interdisciplinaridade, comunicação, empatia, pensamento crítico, gestão de equipes multiprofissionais e compreensão básica das próprias ferramentas digitais e de suas aplicações clínicas.
O uso dessas ferramentas poderá liberar médicos especialistas de tarefas repetitivas para dar maior atenção aos casos complexos. Enquanto isso, os generalistas poderão assumir um papel ainda mais central na coordenação do cuidado e com uma abordagem focada no paciente.
Com base nisso, o paradoxo proposto pelo editorial sugere que a inteligência artificial pode revalorizar a amplitude e importância do olhar clínico generalista ao mesmo tempo em que remodela as fronteiras da especialização médica. E isso não se trata de opor especialistas e generalista, mas de compreender sua interdependência.
Prática médica
Na prática clínica, a discussão sobre uma eventual substituição do médico pela inteligência artificial precisa ser discutida em níveis mais profundos do que o duelo entre humano versus máquina. Mesmo que algoritmos possam superar humanos em determinadas tarefas, sabemos que a prática médica envolve dimensões que ainda não podem ser capturadas por dados, como a construção de vínculos, o manejo das incertezas e a negociação de decisões terapêuticas cm o paciente.
Em ambientes de maior complexidade, a vitória também não pertence apenas ao conhecimento profundo da especialização ou a abrangência do generalismo, mas à integração entre ambos para melhorar o cuidado. Por isso, o desafio para a medicina hoje é acompanhar com um olhar crítico a incorporação da inteligência artificial, que é um caminho sem volta, e, ao mesmo tempo, melhorar as competências que sobrepõem a técnica e garantem que a prática médica permaneça humana, mesmo em um contexto tecnológico.
