A economia global iniciou 2026 sob um cenário de incertezas marcado por riscos associados à inteligência artificial (IA), níveis recordes de endividamento e tensões geopolíticas persistentes. Apesar da desaceleração da inflação e da flexibilização gradual das políticas monetárias em diversas economias, analistas alertam que fatores estruturais continuam a pressionar as perspectivas de crescimento.
Uma análise compilada pela agência Anadolu, com base em avaliações da ING Think, Capital Economics e Deloitte, indica que alguns riscos que dominaram 2025 perderam força, enquanto outros permanecem relevantes e devem influenciar o desempenho econômico ao longo do novo ano.

Risco de “bolha da inteligência artificial”
Entre os principais pontos de atenção está a possibilidade de uma “bolha da inteligência artificial”. O avanço da tecnologia impulsionou investimentos expressivos, especialmente nos Estados Unidos, onde os gastos em infraestrutura de IA contribuíram significativamente para o crescimento econômico em 2025.
No entanto, especialistas alertam que a monetização da IA ainda é incerta. Uma desaceleração abrupta desses investimentos poderia afetar diretamente o mercado de trabalho americano e aumentar o risco de recessão. Além disso, o rápido crescimento dos centros de dados deve elevar a demanda por eletricidade, pressionando redes de energia e potencialmente encarecendo tarifas.
Dívida global atinge níveis históricos
Outro fator de preocupação é o endividamento global. De acordo com o Instituto Internacional de Finanças (IIF, da sigla em inglês), a dívida total no mundo alcançou cerca de US$ 346 trilhões no terceiro trimestre de 2025, o equivalente a aproximadamente 310% do Produto Interno Bruto (PIB) global.
O aumento é impulsionado principalmente por dívidas públicas em economias avançadas, em um contexto de juros ainda elevados e maior custo de financiamento. Para países em desenvolvimento, a combinação de juros altos, fluxos de capital negativos e crescimento mais lento torna o pagamento da dívida cada vez mais desafiador.
Tensões entre EUA e China
As relações entre Estados Unidos e China seguem como um risco relevante para a economia mundial. Apesar de uma trégua temporária nas disputas comerciais, que prevê a manutenção de tarifas e controles de exportação durante a maior parte de 2026, o acordo é considerado frágil.
Um eventual agravamento das tensões pode resultar em novas barreiras comerciais, especialmente relacionadas à exportação de terras raras, afetando cadeias globais de suprimentos e setores estratégicos como semicondutores, indústria automotiva e defesa.
Petróleo e riscos geopolíticos
O mercado de energia também permanece no radar dos analistas. Sanções à Rússia, ataques à infraestrutura energética e incertezas sobre a produção de petróleo na Venezuela elevam o risco de volatilidade nos preços do petróleo.
Altas expressivas no valor do barril podem pressionar a inflação global, reduzir o crescimento econômico e limitar a capacidade dos bancos centrais de cortar juros ao longo do ano.
Mercado de trabalho dos EUA e Europa
Nos Estados Unidos, sinais de arrefecimento do mercado de trabalho, aliados a um crescimento modesto da produtividade, podem afetar o consumo das famílias e ampliar o risco de desaceleração econômica.
Na Europa, a preocupação recai sobre o aumento dos déficits fiscais e da dívida pública, especialmente em países como a França, onde os gastos com defesa tendem a crescer. Caso os rendimentos dos títulos continuem subindo, governos podem ser forçados a adotar medidas de austeridade.
China e crise imobiliária
A economia chinesa segue enfrentando desafios estruturais, com destaque para a fragilidade do setor imobiliário. A queda nos preços dos imóveis, o elevado estoque de propriedades e a redução do investimento continuam a pesar sobre o crescimento.
A desaceleração prolongada do setor pode afetar a riqueza das famílias, a saúde do sistema bancário e a confiança do consumidor, dificultando a transição da China para um modelo de crescimento mais baseado na demanda interna.
Perspectivas para 2026
Analistas avaliam que avanços em negociações de paz no conflito entre Rússia e Ucrânia poderiam melhorar o ambiente econômico global, especialmente se resultarem em maior estabilidade energética e redução de sanções. Ainda assim, o impacto dependerá da durabilidade de eventuais acordos e da resolução de questões geopolíticas sensíveis.
Em um cenário mais favorável, a queda nos preços da energia poderia estimular o crescimento e permitir uma postura monetária mais flexível por parte de alguns bancos centrais. No entanto, os riscos permanecem elevados, exigindo cautela de governos, empresas e investidores ao longo de 2026.

