Inteligência artificial (IA) traz funcionalidades nunca antes vistas que realmente impressionam. É incontestável que a capacidade e a sofisticação dos softwares têm sido muito ampliada com essa tecnologia, automatizando ações até agora impossíveis. Atualmente, vivemos uma desenfreada corrida, com as empresas correndo para incorporar IA em suas ofertas de sistemas. Mas é um erro pensar que AI será um diferencial competitivo. Não será.
Quem foi treinado em lógica já lidou com conceitos de necessidade e suficiência. Mesmo sem treinamento formal, é intuitivo entender o relacionamento entre essas duas condições. A frase “se P então Q” diz que Q é necessário para P, pois é impossível ter P sem Q. Conjugada com a frase “se Q então P”, diz que P é suficiente para Q, pois P verdadeiro sempre implica Q verdadeiro – aqui, estou supersimplificando. Note que P não verdadeiro não necessariamente implica que Q seja não verdadeiro. Um exemplo simples é: “apenas maiores de 16 anos votam”. Com menos de 16 anos você não pode votar. Se votou, tem mais de 16 anos. Ter 16 anos é condição necessária e suficiente.
Um caso mais intrigante são condições necessárias, mas não suficientes. Nesses casos, embora algo seja necessário, por si só não garante suficiência. A corrida para incorporar inteligência artificial nos softwares se enquadra nesse caso. O OpenAI dera uma grande contribuição a esse campo, facilitando a integração com ChatGPT. Qualquer estagiário de computação consegue fazer uma chamada API e integrar inteligência artificial em um sistema. A proliferação de alternativas, como BERT, Llama, Vicuna, Claude 3, Cohere, Gemini, Copilot e DeepSeek faz com que essa integração seja ainda mais fácil em qualquer tipo de programa. A consequência disso é que, em um curto espaço de tempo, todo e qualquer sistema de software, em qualquer área de atuação, necessariamente terá IA integrada. É uma profecia fácil de fazer. Não haverá praticamente nenhum sistema de software corporativo que não tenha IA integrada. Por consequência, não haverá diferencial em ter IA; será uma funcionalidade corriqueira e esperada. Ou seja, será uma condição necessária (todos softwares precisarão ter), mas não suficiente (nenhum software ou empresa se diferenciará apenas por ter IA).
Isso já aconteceu antes. Embora não tenha inventado o conceito, a Salesforce popularizou o conceito de Software-as-a-Service (SaaS). Um grande atrativo da inovação era que ela não exigia a instalação de software, como as CRM concorrentes. Até 2022, a empresa se chamava “Salesforce.com, Inc.”, reforçando a ideia que bastava ir a um site. Seu primeiro logotipo era um botão com a palavra “software” cortada por uma barra, proclamando a falta de necessidade de instalação local. Foi um grande diferencial e uma vantagem competitiva significativa. O crescimento foi explosivo, ultrapassando US$ 1 bilhão em vendas em 2009, e se tornando em 2022 a 61a maior empresa do mundo.
Ser pioneira em SaaS foi um grande alavancador em 1999. Mas hoje, oferecer SaaS não é diferencial algum. Praticamente todas as soluções de software do mercado são SaaS. É uma condição necessária, os compradores esperam que tudo seja SaaS. Não é mais uma condição suficiente para o sucesso, não cria diferencial algum. Quem não oferece SaaS está em desvantagem, mas quem oferece é igual à concorrência. O mesmo ocorrerá em curto espaço de tempo com a inteligência artificial. Será obrigatório e uma condição necessária, mas não suficiente.
Grandes matemáticos do passado, como Boole, Morgan, Leibnitz, Hilbert e Gödel não ajudaram apenas na lógica. Eles ajudam a tocar empresas hoje.
Álvaro Garcia, CEO da Robbu.