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Inteligência artificial faz arte?

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A coqueluche da semana em inteligência artificial foi o novo modelo de criação de imagens embutido no ChatGPT. Lançamentos de novos modelos são bastante frequentes, mas esse fez sucesso particular por duas razões. Uma é bastante técnica — ele gera texto. Já criamos imagens artificialmente faz quase três anos, mas até agora nenhum sistema permitia incluir palavras e frases. Não tinha jeito de botar um nome em rótulo, um texto em pôster, palavras nos balões de quadrinhos. Agora dá. A outra razão não tem nada de técnica: a internet explodiu num sem-número de fotografias transformadas em imagens no estilo dos desenhos animados do Estúdio Ghibli, dirigido pelo japonês Hayao Miyazaki. Isso acirra um debate sobre criação bastante importante. Afinal, a moda das fotos Ghibli não foi acidental.

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Os desenhos do Ghibli têm uma legião de fãs. São artesanais e muito trabalhados. Cada quadro que gera a animação é cuidadosamente desenhado, traçado a pena e aquarelado. Eles usam mais quadros por segundo do que animadores normais para apresentar movimentos mais fluidos — alguns segundos de filme podem levar meses de trabalho. Por isso mesmo, os filmes do Ghibli são raros. Não há muitos. Uma cena de Miyazaki comentando sobre o uso de inteligência artificial em animações, tirada de um documentário de 2016, se tornou famosa. Na opinião dele, é na alma humana que está a arte. Se um ser humano não fez, não é arte. Inteligência artificial, ele afirmou naquele filme, “é uma traição à própria vida”.

Não há como saber se o velho animador segue pensando assim — ele não se manifestou mais sobre o tema desde aquele filme, e o que começamos a ver a partir de 2022 é muito superior ao que havia em 2015, quando opinou. Mas dá para saber outras coisas. A frase de Miyazaki se tornou o principal clichê, o argumento mais comum de que se lança mão para dizer que IAs não produzem arte. Não há discussão acalorada sobre o valor do que sai dos modelos em que alguém não tire do bolso a ideia da traição à vida. Também podemos afirmar é que esse modelo novo da OpenAI produz imagens no estilo de Miyazaki como nenhum outro. É por isso mesmo a febre: sai bem direitinho. Dá, até, para tirar uma conclusão óbvia a respeito: o ChatGPT 4o para imagens foi pesadamente treinado com base em desenhos do Estúdio Ghibli.

Pois é. A moda da internet não é acidental. Pelo contrário: é proposital. A turma da OpenAI construiu um modelo bastante superior aos concorrentes em muitos aspectos que o tornam a crista da onda tecnológica. É o melhor que há na praça. Mas um dos aspectos em que ele é particularmente bom não tem nada a ver com tecnologia. Eles escolheram torná-lo muito bom em copiar o estilo de um artista que, há alguns anos, demonstrou repulsa pública por IA. Por que fizeram isso?

Uma resposta possível é que querem ser processados. Nos Estados Unidos, a Justiça opera na base de precedentes. A lei do direito autoral não é clara a respeito do estilo. Reproduzir a obra de um artista pode ser ilegal, mas copiar seu estilo nunca foi. A razão é simples: só quem tem talento consegue. Copiar o estilo de um artista numa ilustração até era possível, mas nunca em quantidade. Os modelos de IA mudam essa realidade. Agora, é possível copiar um estilo artístico em música, em ilustrações e em texto com qualidade razoável. No caso de ilustrações, quase passamos a fronteira em que se torna difícil dizer o que é original e o que é cópia. Para legitimar legalmente esse uso de IA, é preciso arrumar um processo e levá-lo até a última instância, a Suprema Corte.

Esse não é um nó fácil de desatar. Não é dado que Miyazaki esteja correto e que arte, para ser arte, necessite da alma humana. Inteligência artificial é treinada aprendendo com o que seres humanos criaram. Se a música que cria ou seus textos ainda não são particularmente bons, só parecem um pastiche do original, chegarão lá. Até que ponto essas IAs não são apenas novas ferramentas? Isto posto, onde está a alma na criação humana? Onde ela estiver, claro, merece proteção legal. É no estilo? É na obra?

Ontem, segunda-feira, a Runway, que compete no território das IAs para criação de vídeo, lançou sua versão 4. Com ela, é possível criar cenas diversas com as mesmas personagens, mundos inteiros que podem ser vistos de vários ângulos. Começa a ser possível construir filmes completos. Há muitas conversas para ter sobre essa tecnologia. Mas ela não vai parar tão cedo de avançar. Semanalmente.

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