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Inteligência artificial: o novo “deus” da tecnologia

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Sobre a Inteligência Artificial (IA), importa questionar o impacto desta revolução tecnológica no meio ambiente e na sociedade. Já não se trata apenas de saber utilizar esta ferramenta, mas também e sobretudo porquê e para que fim.

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Multiplicam-se os artigos, debates e fóruns sobre Inteligência Artificial. Anda meio mundo, sobretudo os que veem nela uma oportunidade para multiplicarem os seus lucros, fascinado e rendido a este suposto “deus” da tecnologia que parece ser solução para todos os nossos males. Os naturais e aqueles que a ganância da frágil humanidade a todos inflige. Mas será mesmo assim ou anda esse meio mundo a pretender, mais uma vez, enganar outro meio mundo? Verdade seja dita que falando de tantas vantagens mais fácil se torna cairmos no engodo.

Foto 1 © Steve Johnson Unsplash

Foto 1 © Steve Johnson Unsplash “Multiplicam-se os artigos, debates e fóruns sobre Inteligência Artificial (IA). Anda meio mundo, sobretudo os que veem nela uma oportunidade para multiplicarem os seus lucros, fascinado e rendido a este suposto ‘deus’ da tecnologia que parece ser solução para todos os nossos males.” Foto © Steve Johnson / Unsplash

Há aspectos sobre os quais devemos focar a nossa atenção e sobre os quais importa reflectir, uma vez que têm implicações dramáticas na definição do futuro coletivo da nossa Casa Comum. A relação entre Inteligência Artificial e Sustentabilidade do planeta é um aspecto fundamental.

Pode-se elencar, logo à partida, três necessidades essenciais à IA que são altamente lesivas para o planeta e que podem colocar em causa a sua sustentabilidade num futuro não tão longínquo como às vezes nos fazem crer. A necessidade de grandes quantidades de energia, de água e de metais raros deveriam levar-nos a todos a uma séria ponderação e a fazer um balanço muito claro entre as vantagens e desvantagens que estão no prato da balança. Isso significaria que talvez devêssemos prescindir de alguns avanços da IA em favor de uma maior sustentabilidade do planeta. (cf. Mensagem do Papa Francisco à Cimeira de ação sobre Inteligência Artificial que teve lugar em Paris em fevereiro último).

A Microsoft anunciou há uns meses que teria de se ligar diretamente à unidade número 1 do reator nuclear de Three Mile Island para garantir o seu fornecimento de energia. A empresa norte-americana Constellation, que gere essa central, vai investir, no âmbito de um contrato de aluguer de vinte anos,1,6 mil milhões de euros para reiniciar este reator, que estava desativado desde 2019.

O acordo visa “ajudar a compensar a energia utilizada pelos seus centros de dados com energia livre de carbono”. De 2020 a 2023, a empresa viu as suas emissões de gases com efeito de estufa aumentarem 29%, uma trajetória que compromete a meta de neutralidade carbónica da Microsoft para 2030.

“Isto foi antes da explosão da inteligência artificial e das suas necessidades elétricas”, disse Brad Smith, presidente do grupo, à agência de notícias Bloomberg. Face às gigantescas necessidades energéticas, que explodiram com o desenvolvimento da cloud na década de 2010 e, mais recentemente, da IA, a Gafam (acrónimo de gigantes da Web, Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft) está a interessar-se muito pela energia nuclear para diminuir a sua pegada de carbono.

Reactor SMR NuScale

Reactor SMR NuScale “Face às gigantescas necessidades energéticas, que explodiram com o desenvolvimento da cloud na década de 2010 e, mais recentemente, da IA, a Gafam (acrónimo de gigantes da Web, Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft) está a interessar-se muito pela energia nuclear para diminuir a sua pegada de carbono.” Foto © NuScale

 

Em outubro, a Amazon anunciou acordos com a empresa de energia Energy Northwest para construir quatro pequenos reatores nucleares modulares (SMR) [ver 7MARGENS] com uma capacidade total de 320 megawatts, o equivalente ao consumo anual de energia de 250 mil lares americanos.

Da mesma forma, a Oracle, multinacional americana especializada na gestão de bases de dados e software empresarial, acaba de obter autorizações legais para construir três SMR em solo americano, anunciou Lawrence Joseph Ellison, o seu CEO, em Setembro último.

“O que mudou com a inteligência artificial generativa em comparação com os modelos anteriores é que os algoritmos recalculam tudo de cada vez, ou seja, milhares de milhões de possibilidades de cálculo por cada palavra gerada”, explica Theo Alves da Costa, cofundador da Dataforgood, um think-tank de profissionais de tecnologia que refletem sobre utilizações mais éticas e ecológicas das novas tecnologias.

A Inteligência Artificial Generativa está cada vez mais presente nas nossas vidas através de ferramentas (ChatGPT, Midjourney, DALL-E, etc.) capazes de gerar conteúdos (textuais, visuais e em vídeo) de qualidade quase humana e a uma velocidade inigualável. Devemos questionar o impacto desta revolução tecnológica na nossa sociedade. Já não se trata apenas de saber utilizar estas ferramentas, mas também e sobretudo porquê e para que fim.” (cf. Livro Branco da Inteligência Artificial)

Focar nas emissões de gases com efeito de estufa como o único indicador do impacto ecológico da tecnologia digital, como faz a Gafam, é pura lavagem verde. “Precisamos de ter em conta todo o ciclo de vida, desde a extração dos metais até ao betão utilizado para construir o data center”, afirma Frédéric Bordage, fundador da GreenIT, um coletivo de especialistas em sobriedade digital.

Chips de computador

Chips de computador “O silício é elemento chave para a construção de chips de computadores. A fabricante taiwanesa TSMC, que domina mais de metade do mercado global de chips e viu a sua receita aumentar 60% num ano graças à IA em 2024, utiliza 156 mil toneladas de água por dia para lavar silício, mais de 10% do consumo total de água da ilha.” Foto © Laura Ockel / Unsplash

 

Na China, o maior produtor mundial de silício, a mineração tem um custo ecológico significativo. Para além de utilizar muita energia de carbono durante a refinação – a matriz energética chinesa depende atualmente do carvão – a exploração das minas de silício requer a utilização de cloro, ácidos e vários solventes que contaminam o ar, a água e o solo, colocando em risco os funcionários e habitantes das regiões mineiras de Xinjiang.

O crescimento exponencial da utilização de inteligência artificial está também a levar a indústria de semicondutores – que consome muita água – à capacidade máxima. A fabricante taiwanesa TSMC, que domina mais de metade do mercado global de chips e viu a sua receita aumentar 60% num ano graças à IA em 2024, utiliza 156 mil toneladas de água por dia para lavar silício, mais de 10% do consumo total de água da ilha.” (cf. Alternatives Économiques, fevereiro 2025)

“Desde a extração de metais ao consumo de eletricidade dos centros de dados, o ciclo de vida dos supercomputadores tem um impacto ecológico muito significativo. Neste momento, a Gafam e o resto da indústria estão a olhar para o outro lado”, comenta Pierre Monget, director de programas da Hub France IA, uma associação profissional que reúne empresas francesas do sector.

Para Frédéric Bordage (GreenIT), o drama do impacto ecológico da IA ​​reside sobretudo nos usos que dela são feitos: “Sendo os recursos uma quantidade finita, devemos reservar a IA para usos prioritários. A otimização de marketing ou geração de conteúdo significa menos ressonâncias magnéticas amanhã”.

De acordo com alguns especialistas, os sistemas de IA correm o risco de aumentar em dez vezes o número de utilizações com baixa utilidade social e elevado consumo de energia, o que constitui um entrave sério à procura de consensos com vista a maior moderação no desenvolvimento e utilização.

Este é um debate que temos o dever, talvez a obrigatoriedade, de promover em nome do futuro, ou seja, em nome da sustentabilidade do nosso planeta e do legado que deixaremos a outros.

Em França, o Conseil économique social et environnemental (CESE) publicou, em setembro de 2024, um trabalho sobre os impactos da IA: riscos e oportunidades para o ambiente.

É também nossa responsabilidade não deixar que alguns, em nome dos seus interesses, esventrem o planeta, explorem pessoas, nomeadamente crianças, na mineração e esgotem os recursos do planeta em proveito próprio.

Esta é apenas uma das vertentes de um debate que é bem mais vasto. O Papa Francisco tem estado atento à problemática e têm sido várias as chamadas de atenção, sendo disso exemplo o seu discurso na reunião do G7 sobre inteligência artificial que teve lugar em Borgo Egnazia (Itália), em junho de 2024.

Também o Dicastério para a Doutrina da Fé e o Dicastério para a Cultura e Educação publicaram recentemente Antiqua et Nova – Note sur les relations entre l’intelligence artificielle et l’intelligence humaine partindo de algumas ideias já afloradas por Francisco.

IA 5 Vatican News

IA 5 Vatican News “Vivemos um tempo da história da humanidade em que a complexidade dos problemas que enfrentamos exige grande ponderação, coragem e, sobretudo, capacidade para decidir na defesa do bem comum, nomeadamente em nome do futuro daqueles que virão depois de nós.”  Foto © Vatican News

Por sua vez, a Conferência Episcopal Francesa, aquando da Cimeira de ação sobre Inteligência Artificial, em Paris, anunciou estar a reflectir sobre a possibilidade em desenvolver a sua própria IA com o objectivo de proteger o “magistério da palavra”. Este facto despoletou no país um debate sobre a questão e a sua necessidade, com cada uma das partes, a favor e contra, esgrimindo os seus argumentos.

As sociedades são hoje confrontadas com desafios complexos e são chamadas a resolver problemas também eles complexos para os quais estão longe de estar preparadas. Podem dizer-me que o mundo sempre foi assim e que sempre houve momentos na História de grande indefinição quanto ao futuro. Sendo em parte verdade, há várias razões para que eu pense ser hoje a nossa situação muito diferente da de outros tempos. No pós-guerra, anunciava-se um horizonte de esperança de que o progresso apontava para um maior bem-estar; construíam-se organizações, como a ONU, que nos davam alguma segurança, apesar dos muitos problemas e da guerra fria. Hoje, capturados por interesses económicos altamente lucrativos, os decisores sentem-se perdidos no meio de mais dúvidas do que certezas, tendo como horizonte um futuro que parece cada vez mais dramático e sem capacidade, visão e coragem para tomarem as decisões necessárias. E, contudo, bem necessitaríamos.

Vivemos um tempo da História da Humanidade em que a complexidade dos problemas que enfrentamos exige grande ponderação, coragem e, sobretudo, capacidade para decidir na defesa do bem comum, nomeadamente em nome do futuro daqueles que virão depois de nós. Há que fazer escolhas e impedir que os interesses das grandes empresas tecnológicas se sobreponham, mais uma vez, ao bem-comum.

 

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