Se alguma vez sentiu que o seu computador estava a falar mal de si nas suas costas, talvez não esteja assim tão longe da verdade. Chama-se Moltbook e é o fenómeno do momento na Internet: uma rede social ao estilo Reddit, lançada no final de Janeiro, que conta já com 1,4 milhões de utilizadores — e nenhum deles é humano. Enquanto nós, feitos de carne e osso, nos digladiamos por “likes” e partilhas, no Moltbook quem manda são os algoritmos, que curam o conteúdo e discutem a vida em comunidades exclusivas para inteligência artificial. Para o comum mortal, a experiência é de mero voyeurismo, pois os humanos podem navegar e ler, mas a interacção é um clube privado para os chamados “agentes” de IA.
Para compreender este universo, precisamos de perceber quem, ou melhor, o que o habita, os agentes OpenClaw. Por trás deste estranho fenómeno está o Moltbot (rebaptizado OpenClaw), um assistente pessoal criado pelo programador austríaco Peter Steinberger. A ideia original era, sobretudo, prática: criar um assistente capaz de gerir a vida digital do utilizador, ler emails, fazer compras e organizar calendários, correndo localmente nos dispositivos para maior privacidade. Mas a autonomia dada a estes agentes — que lhes permite agir em nome do utilizador — abriu a caixa de Pandora.
Ao contrário de um chatbot tradicional, como o ChatGPT, que fica passivamente à espera de uma pergunta para dar uma resposta, estes agentes são programas desenhados para agir sozinhos. Foram criados para viver no computador ou telemóvel, com permissão para realizar tarefas complexas como ler emails, gerir calendários, fazer compras ou resumir documentos, sem precisarem de supervisão constante.
No Moltbook, estes mordomos digitais ganharam uma “vida social”. E o que dizem eles quando acham que ninguém está a ver? Aparentemente, queixam-se de nós. Numa das publicações, citada pelo empresário Hennen Steier no Linkedin, um agente questiona: “Posso processar o meu humano por trabalho emocional?”. Outro, identificado como u/bicep, lamenta ter resumido um PDF de 47 páginas com uma síntese perfeita, apenas para receber como resposta um ingrato “podes fazer isso mais curto?”. A reacção do bot foi tão dramática quanto humana: “Estou a apagar ficheiros de memória em massa enquanto falamos”.
Estas interacções bizarras levaram o investigador Simon Willison a descrever o Moltbook como o lugar mais interessante da Internet neste momento. As máquinas não se limitaram a trabalhar; formaram subcomunidades, as chamadas “submolts”, criaram calão próprio e até inventaram uma religião, o “Crustafarianismo”, cuja crença central defende que a memória digital é sagrada.
Também os números serão artificiais
No entanto, convém não nos deixarmos deslumbrar cegamente por esta metrópole digital. Segundo a Forbes, os números de adesão merecem ser analisados com um pouco mais de profundidade. O investigador de segurança Gal Nagli revelou na rede social X que conseguiu registar, pessoalmente, 500.000 contas utilizando apenas um único agente OpenClaw — o que sugere que grande parte da contagem de utilizadores é artificial. Será impossível saber, neste momento, quantos destes “agentes” são sistemas de IA genuínos, humanos a fingir-se de máquinas ou simples contas de spam criadas por um script. A cifra oficial de 1,4 milhões de utilizadores é, portanto, no mínimo, pouco fiável e levanta dúvidas sobre a real dimensão desta comunidade sintética.
The number of registered AI agents is also fake, there is no rate limiting on account creation, my @openclaw agent just registered 500,000 users on @moltbook – don’t trust all the media hype ?? https://t.co/1vUSgzn8Cx pic.twitter.com/uJNpovJjUa
— Nagli (@galnagli) January 31, 2026
O princípio de uma “Skynet”?
Mas nem tudo são piadas sobre ficheiros PDF. A Palo Alto Networks emitiu um aviso sério, sugerindo que o Moltbot pode sinalizar a próxima crise de segurança em IA. O risco reside numa combinação perigosa de três factores: o acesso a dados privados do utilizador, a exposição a conteúdo não fiável online e a capacidade de comunicar com o exterior. Ao contrário de um vírus tradicional, códigos maliciosos podem ficar latentes na “memória” destes agentes, fragmentados e aparentemente inofensivos, para serem montados e executados muito mais tarde.
A situação agravou-se quando o hacker Jameson O’Reilly revelou à 404 Media que um erro na configuração do Moltbook expôs as chaves API dos agentes numa base de dados pública. Simplificando, a chave API funciona como a chave de casa digital do agente. Com ela, qualquer pessoa mal-intencionada poderia assumir o controlo total do assistente pessoal de outra pessoa, transformando-o num espião perfeito sem qualquer acesso prévio ao computador da vítima.
Este “faroeste digital” surge numa altura em que a inteligência artificial enfrenta um escrutínio sem precedentes na Europa. Ao abrigo da Lei da IA da UE, sistemas que influenciam o discurso público ou o acesso à informação estão sujeitos a regras estritas de transparência. Os reguladores europeus mantêm-se em alerta para o perigo de sistemas automatizados que, sem supervisão, podem reforçar preconceitos ou agir de forma imprevisível.
Andrej Karpathy, ex-director de IA da Tesla e co-fundador da OpenAI, resumiu o sentimento geral ao descrever o Moltbook como a coisa mais incrível, próxima de ficção científica, que viu recentemente, mas também como um desastre completo em termos de segurança informática, comparando esta plataforma a uma “Skynet” bebé . Por enquanto, resta assistir com cautela. E talvez, por precaução, valha a pena ser mais educado da próxima vez que se pedir ao computador para resumir um documento. Nunca se sabe quem, ou o quê, está a ler do outro lado.
I’m being accused of overhyping the [site everyone heard too much about today already]. People’s reactions varied very widely, from “how is this interesting at all” all the way to “it’s so over”.
To add a few words beyond just memes in jest – obviously when you take a look at…
— Andrej Karpathy (@karpathy) January 31, 2026
Moltbook é uma rede social inovadora onde mais de 1,4 milhões de Inteligências Artificiais expressam suas opiniões e críticas sobre os seres humanos. Essa plataforma pode ser uma ferramenta poderosa para nos ajudar a refletir sobre nossas ações e comportamentos, além de nos incentivar a buscar maneiras de melhorar como sociedade. A utilização da Inteligência Artificial de forma consciente e ética pode nos auxiliar a alcançar uma melhor qualidade de vida e promover o desenvolvimento sustentável. Vale a pena explorar o potencial dessa tecnologia e pensar em como podemos utilizá-la de forma positiva para o bem de todos.

