2025 foi o ano em que a tecnologia “saiu do ecrã” para o mundo real. Enquanto a inteligência artificial amadureceu e se democratizou, avanços em biotecnologia, física quântica, astronomia e medicina redefiniram o possível. Das profundezas do cosmos aos micróbios resistentes descobertos nas salas limpas da NASA, dos agentes autónomos de IA aos saltos da computação quântica, 2025 termina com um balanço impressionante que atravessa todas as fronteiras do conhecimento humano.
A Inteligência Artificial consolidou-se como o epicentro da inovação em 2025. Se 2024 foi o ano em que a IA deixou de ser apenas conversa, este ano que agora finda confirmou-a como força transformadora em múltiplos sectores, da indústria à saúde, da educação à ciência pura.
Ao longo de 2025, as empresas de IA lançaram modelos cada vez mais capazes, versáteis e fiáveis, desafiando os limites antes imaginados para estes sistemas. Entre eles, destacam-se o DeepSeek R1, que tornou o treino de sistemas avançados muito mais económico, e o GPT-5 da OpenAI, que minimizou problemas anteriores como as chamadas “alucinações”. Estes avanços reflectem a rápida evolução da tecnologia, com algoritmos cada vez mais eficientes e adaptáveis.
Este foi ainda o ano em que as IAs deixaram de ser meros “assistentes de chat” e se tornaram agentes autónomos capazes de executar tarefas complexas, de ponta a ponta — desde reservar viagens até gerir emails, operar softwares e navegar interfaces de computador como humanos.
Enquanto a IA se expandia, surgiram também desafios inéditos. Os deepfakes deixaram de ser uma curiosidade tecnológica para se tornarem instrumentos de manipulação política, golpes financeiros sofisticados e destruição reputacional. O modelo Zero Trust passou a ser o padrão mínimo de segurança nas empresas, enquanto soluções de criptografia pós-quântica começaram a ser adoptadas em antecipação ao avanço da computação quântica.
A discussão deixou de ser “usar IA” para “como usar com responsabilidade”, impulsionando regulamentações na União Europeia, Estados Unidos e América Latina, focadas em transparência, explicabilidade e mitigação de vieses algorítmicos.
O AI Action Summit em Paris reuniu líderes de mais de 100 países para debater governança, enquanto o primeiro International AI Safety Report, liderado por Yoshua Bengio, estabeleceu marcos em segurança e gestão de riscos da IA.
A educação e a formação também se adaptaram à nova realidade. A UNESCO dedicou o Dia Internacional da Educação 2025 à IA, promovendo a integração ética da tecnologia no ensino, e eventos como o AI in Science Summit reuniram académicos e profissionais da indústria para explorar como a inteligência artificial pode acelerar a investigação científica.
No conjunto, 2025 foi o ano em que a IA deixou de ser apenas promissora para se tornar uma força real de transformação global, influenciando economia, ciência e sociedade.
Biotecnologia e Medicina: O Ano das Curas “Impossíveis”
Tal como a IA, a biotecnologia viveu avanços extraordinários em 2025. As vacinas de mRNA personalizadas contra o cancro deixaram de ser promessa para se tornarem realidade clínica, com resultados históricos de remissão em testes para cancro pancreático e melanoma. A tecnologia de mRNA, consagrada na pandemia, mostrou finalmente o seu potencial terapêutico directo.
A aprovação do Lenacapavir, uma injecção aplicada apenas duas vezes ao ano com eficácia superior a 99% na prevenção do HIV, foi um divisor de águas na saúde pública global, colocando o fim da epidemia no horizonte desta década.
O CRISPR 3.0 atingiu um marco inédito: pela primeira vez, reverteu cegueira hereditária em ensaios clínicos, demonstrando o poder da edição genética de precisão. A bioimpressão 3D produziu micro-órgãos funcionais para testes de medicamentos e um protótipo de rim com estruturas reais.
Os xenotransplantes bateram recordes: um rim de porco geneticamente modificado (com 69 genes alterados) funcionou durante quase nove meses num paciente, mostrando viabilidade crescente. Estes avanços beneficiam directamente da compreensão das células T reguladoras, cujos descobridores – Mary Brunkow, Fred Ramsdell e Shimon Sakaguchi – receberam o Nobel de Medicina de 2025. O estudo destas “guardiãs” do sistema imunológico permitiu reduzir complicações em transplantes e abriu caminho para novos tratamentos contra cancro e doenças auto-imunes.
Paralelamente, a inteligência artificial passou a criar proteínas sintéticas que superam as naturais, simulando 500 milhões de anos de evolução em apenas alguns dias. Estas proteínas já eliminaram bactérias resistentes e abriram caminho para terapias personalizadas.
Por fim, cientistas descobriram como os tumores manipulam neurónios para receber mitocôndrias, facilitando metástases, uma descoberta que poderá revolucionar os tratamentos oncológicos.
Computação Quântica: O Ano da Viragem
A ONU declarou 2025 como o Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quânticas, assinalando um século de mecânica quântica. O simbolismo foi acompanhado por investimento real: os aportes globais ultrapassaram os 44 mil milhões de dólares, com a China na liderança.
Neste contexto, os avanços deixaram de ser apenas teóricos. O Google apresentou o chip Willow, capaz de resolver em cinco minutos problemas que exigiriam dez septilhões de anos a um supercomputador convencional, enquanto a IBM demonstrou correcção de erros em chips quânticos escaláveis, aproximando a tecnologia de aplicações comerciais ainda nesta década.
Paralelamente, sensores quânticos baseados em diamantes sintéticos revelaram um enorme potencial em detecção ultra-sensível, com aplicações que vão da medicina à navegação e às geociências. Gigantes tecnológicos como Nvidia, Amazon e Microsoft entraram formalmente na corrida, com a Nvidia a inaugurar em Boston o Accelerated Quantum Research Center. O mercado quântico deverá atingir os 22 mil milhões de dólares até 2032.
Do lado da investigação fundamental, projectos como o chinês Zuchongzhi 3.0 demonstraram vantagem quântica pura, resolvendo problemas com uma eficiência inalcançável para os supercomputadores clássicos.
Mais uma vez, menção aqui para os vencedores do Nobel deste ano, desta feita, os da Física, cujo trabalho contribuiu para os desenvolvimentos actuais. John Clarke, Michel Devoret e John Martinis foram reconhecidos pela descoberta do tunelamento quântico macroscópico e quantização de energia em circuitos eléctricos. Ou seja, em sistemas grandes o suficiente para serem segurados na mão, mas que exibem comportamento quântico.
Astronomia: O Universo Mais Antigo e Estranho
O James Webb continuou a revolucionar a astronomia. Confirmou o (já anteriormente descoberto) exoplaneta mais frio que se conhece, WD 1856+534 b, a orbitar uma anã branca a –87°C, e descobriu o Capotauro, talvez a galáxia mais antiga de que há registo, formada apenas 100 milhões de anos após o Big Bang. Galáxias massivas e maduras como a MoMz14 surgem onde não deveriam existir, desafiando tudo o que pensávamos sobre o cosmos.
Observações mostraram buracos negros supermassivos formados por colapso directo de gás, sem supernovas, e fenómenos raros como “tornados espaciais” e buracos negros com massas dezenas de milhares de milhões de vezes a do Sol.
O Observatório Vera C. Rubin, concluído no Chile com a maior câmara digital já construída, de 3,2 gigapixels, iniciou operações prometendo varrer todo o céu a cada três dias durante 10 anos, colectando mais dados num único ano do que todos os outros telescópios da história juntos.
O número de exoplanetas confirmados ultrapassou os 6.000. Entre eles, o K2-18b gerou debate científico ao apresentar possíveis sinais de vida, incluindo sulfureto de dimetilo e dissulfeto de dimetilo, compostos que na Terra são produzidos apenas por organismos vivos, embora a interpretação ainda esteja sob escrutínio científico.
Lançado em Julho, o satélite radar NISAR (NASA-ISRO) trouxe monitorização terrestre detalhada. O Euclid, mesmo com apenas 0,45% do rastreio feito, já gerou 34 artigos.
Nunca se soube tanto sobre o Universo…
Energia: A Viragem Verde Irreversível
O destaque científico do ano, segundo a revista Science, foi o crescimento “aparentemente imparável” das energias renováveis. Pela primeira vez, solar e eólica superaram o carvão na produção mundial de electricidade. Entre Janeiro e Junho, estas fontes cresceram o suficiente para cobrir todo o aumento do consumo global.
O reactor experimental EAST na China atingiu 100 milhões de graus Celsius por quase 18 minutos, aproximando a fusão nuclear de realidade sustentável. Baterias de estado sólido com ânodos de silício e lítio-enxofre romperam limites, aproximando carros eléctricos de 1.000 km de autonomia e com carregamento em 10 minutos.
Última menção dos Nobel: na Química foram premiados Susumu Kitagawa, Richard Robson e Omar Yaghi pelo desenvolvimento das estruturas metal-orgânicas (MOFs), “esponjas moleculares” com grandes espaços internos por onde gases e químicos fluem. Estas estruturas podem capturar água do ar do deserto, armazenar dióxido de carbono, capturar gases tóxicos, catalisar reacções químicas e até separar substâncias PFAS (“químicos eternos”) da água, ferramentas essenciais para enfrentar desafios ambientais.
Descobertas Curiosas e Inovações Inesperadas
Cientistas criaram a “cor Olo” — uma cor inédita que não existe no espectro visual natural — estimulando a retina humana com lasers de precisão, provando que o sistema visual ainda guarda segredos profundos.
A NASA descobriu 26 espécies de bactérias nunca identificadas nas suas salas limpas supostamente estéreis, desafiando pressupostos sobre resistência microbiana e protecção planetária.
Foram criados materiais auto-curativos capazes de reparar danos estruturais sem intervenção externa. Um designer londrino criou chinelos a partir de pó doméstico do aspirador. O colectivo “Bionic and the Wires” ligou cogumelos e plantas a sensores que traduzem sinais biológicos em música.
O robô aranha “Charlotte” combina robótica e impressão 3D para construir edifícios de dois andares. O OceanOneK mergulha até mil metros transmitindo sensação de tacto à distância. O drone SUPER MAV voa a 70 km/h com sensor LiDAR tridimensional.
Cabo Verde: Salto no Atlântico
Cabo Verde também registou avanços em 2025, com destaque para a ciência oceânica e o investimento em tecnologia.
Em Maio, foi inaugurado o TechPark CV, parque tecnológico financiado pelo Banco Africano de Desenvolvimento com 45,6 milhões de euros, que tem como objectivo posicionar o arquipélago como centro digital no Atlântico.
O programa Cabo Verde Digital foi distinguido como “Champion” nos prémios WSIS da ONU/UIT, validando a estratégia de exportação de serviços digitais.
O lançamento da Revista Cabo-verdiana de Investigação em Saúde, pelo Instituto Nacional de Saúde Pública, em Agosto, criou a primeira plataforma científica nacional dedicada à saúde, com registo em bases internacionais.
Já o VI Congresso Nacional de Investigação em Saúde reuniu especialistas para discutir vigilância epidemiológica e impactos das alterações climáticas, sublinhando a necessidade de bio-bancos e sistemas de informação robustos para decisões baseadas em evidências.
Entre 2 e 6 de Junho, a Universidade de Cabo Verde organizou a Semana TIM 2025 sob o lema “Cabo Verde 2030 – um hub digital no Atlântico”. O evento reuniu academia, indústria e governo, estimulando soluções tecnológicas e reforçando a cooperação para a transformação digital do país. Workshops, palestras e demonstrações mostraram como os jovens talentos cabo-verdianos podem contribuir para a economia digital, alinhando educação, inovação e empregabilidade.
A VIII Cabo Verde Ocean Week no Mindelo, em Novembro, centrou-se no clima como eixo da Economia Azul, com avanços no Ocean Science Centre Mindelo usando bioindicadores marinhos para monitorizar mudanças climáticas. O Presidente José Maria Neves, patrono da UNESCO para a Aliança da Década do Oceano, organizara em Outubro na ilha do Fogo a quarta Conferência da Década do Oceano com 200 participantes internacionais.
A participação cabo-verdiana em expedições como a Around Africa Expedition 2025 reforçou a reputação do país como parceiro estratégico em oceanografia. Cientistas do Instituto do Mar mapearam ecossistemas marinhos e estudaram a biodiversidade nos seamounts de Nola/Noroeste, próximos a Santo Antão.
Cabo Verde subiu para 95.º no Global Innovation Index (7.º em África). O desempenho é positivo para um país pequeno, mas o relatório destacou desafios estruturais: fraca ligação entre universidades e empresas, investimentos limitados em investigação e dificuldades no financiamento de startups.
Cabo Verde e o Japão firmaram cooperação nas áreas da inteligência artificial, gestão da água e economia azul. No plano da IA, a parceria promete trazer know-how e projectos concretos, ajudando o país a acelerar no digital e a experimentar soluções inovadoras para os desafios locais.
E, como em todo o mundo, a inteligência artificial marcou presença também no arquipélago.
* NR: Este artigo foi elaborado com apoio de ferramentas de IA (ChatGPT, Claude e Gemini).
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1257 de 31 de Dezembro de 2025.
