Tem uma pergunta que venho me fazendo há algum tempo, e talvez ela também faça sentido para você: o que a gente está procurando quando abre uma rede social?
Eu continuo ali. Ainda entro, ainda acompanho algumas coisas. Mas, de uns meses para cá, fui diminuindo o tempo que passo nesse ambiente. Fui reduzindo porque, em muitos dias, eu abria o aplicativo e, poucos minutos depois, me perguntava o que estava fazendo ali.
Era uma sensação estranha, mais próxima de um vazio do que de um cansaço. Como se eu tivesse entrado em um lugar cheio demais, aceso demais, falante demais, mas sem encontrar de fato uma conversa. Eu passava por vídeos, frases, opiniões, anúncios, promessas, imagens perfeitas demais. No fim, quase nada ficava. O que crescia em mim não era interesse. Era saturação. Era excesso de vazio.
Foi com esse sentimento já amadurecido em mim que cheguei ao SXSW 2026, em Austin. E talvez por isso o evento tenha me tocado de um jeito diferente. A inteligência artificial estava em toda parte, como se esperava. A programação oficial do festival colocou Tech & AI e Workplace entre os grandes eixos da edição, e a própria descrição desses trilhos tratava a IA como força central da transformação em curso.
O que mais me marcou, porém, não foi a presença da IA. Foi o tom da conversa. Havia muita gente tentando explicar o futuro como se ele já estivesse decidido. Muita convicção sobre o que a inteligência artificial vai substituir, acelerar, corrigir, resolver. Muita informação e muito vazio. Até o ponto de cansar e selecionar melhor com quem gastaria meu tempo lá.
E foi justamente no meio desse excesso de certeza que um pensamento começou a se organizar em mim: talvez a IA não seja apenas a tecnologia que vai nos desafiar. Talvez ela seja também a razão pela qual vamos voltar a valorizar o que ela não consegue viver por nós.
Eu sei que essa ideia parece contraditória. Ficou comum falar de uma batalha entre humanos e máquinas, como se estivéssemos diante de uma disputa frontal. Mas talvez a história seja menos dramática e mais sutil. Talvez a questão não seja saber se a máquina fará mais coisas do que nós. Talvez a questão seja entender o que acontece com o desejo humano quando o artificial se torna abundante demais.
Porque abundância nem sempre gera encantamento. Às vezes, gera saturação.
E não sou só eu que sinto isso. Uma pesquisa recente do Pew Research Center mostrou que, em 2023, 27% dos adolescentes americanos diziam passar tempo demais nas redes sociais. Na medição mais recente, esse número subiu para 45%. No mesmo estudo, 44% disseram que reduziram o uso das redes, e a mesma proporção afirmou ter reduzido o uso do smartphone. Isso ainda não prova uma virada definitiva, mas mostra um sinal importante: a percepção de excesso já está sendo nomeada pela própria geração que cresceu dentro da tela.
Quando a gente amplia a lente, esse sinal fica ainda mais interessante. Dados globais compilados com base em pesquisas da GWI, mostram que o tempo médio diário dedicado às redes sociais caiu de 2 horas e 31 minutos no terceiro trimestre de 2022 para 2 horas e 19 minutos no segundo trimestre de 2024, uma queda de 8,6%. Não é uma ruptura. Não é o fim das plataformas. Mas é um recuo relevante num ambiente que, por muito tempo, parecia só saber avançar.
Eu não diria que a IA, sozinha, explica essa inflexão. Seria simples demais. Mas me parece difícil ignorar o contexto. Nos últimos anos, vimos uma explosão de textos, imagens, vídeos, anúncios e interações produzidos ou acelerados por inteligência artificial. Ganhamos volume, velocidade e conveniência. Mas abundância não é a mesma coisa que valor. Um levantamento da IAB mostrou um descompasso entre o entusiasmo do mercado e a recepção do público, e dados reportados a partir desse estudo indicam que 39% da Geração Z têm percepção negativa sobre anúncios gerados por IA, quase o dobro do índice entre millennials. Em algum momento, o excesso de artificialidade começa a cansar.
Talvez seja aí que o excesso de vazio ganhe sua forma mais clara. A tela continua cheia, mas menos viva. Tem mais coisa acontecendo, mas menos coisa tocando. A experiência fica mais rápida, mais limpa, mais eficiente. E, ainda assim, mais rasa. Não porque a tecnologia tenha falhado, mas porque ela foi eficiente demais em produzir estímulo e insuficiente em produzir sentido.
Foi por isso que voltei do SXSW pensando menos na força da IA e mais no limite dela. A pergunta que ficou comigo não foi se ela vai dominar tudo. Foi outra: o que acontece com a gente quando quase tudo pode ser transformado em estímulo?
No Brasil, essa reflexão encontrou um eco bonito no que vem acontecendo nas escolas. O MEC iniciou, em 2026, uma pesquisa nacional com mais de 8 mil escolas públicas e privadas para avaliar os efeitos da lei que restringe o uso de celulares no ambiente escolar. Em paralelo, balanços reunidos pela Fundação Lemann indicam que 80% dos estudantes relatam mais foco nas aulas após a restrição, enquanto levantamentos em escolas do Rio Grande do Sul apontam melhora no clima escolar e na aprendizagem.
Mas o dado que mais mexeu comigo foi outro. Em instituições ligadas à rede Marista Brasil, começaram a aparecer sinais de redescoberta da vida concreta. No Colégio Marista São José Tijuca, segundo monitoramentos reportados em 2026, 72% dos estudantes disseram conversar mais nos intervalos, a frequência na biblioteca cresceu 40% e o uso de pátios e quadras aumentou 68%. Quando li isso, tive a sensação de que ali havia algo maior do que uma medida escolar. Quando a tela perde centralidade, a vida reaparece.
Talvez esse tenha sido o meu principal insight no SXSW 2026. Em meio a tantas previsões grandiosas sobre o poder da inteligência artificial, o que mais ficou em mim foi a suspeita de que o excesso de informação e de artificialidade pode ser justamente o que vai nos empurrar de volta para experiências mais humanas. Não por rejeição à tecnologia. Não por nostalgia. Mas por discernimento.
Porque é possível que a geração que está crescendo agora aprenda algo que a minha demorou mais para entender: que nem toda facilidade melhora a vida, que nem toda conexão cria vínculo e que nem toda resposta pronta merece confiança. Talvez esses jovens sejam os primeiros a desenvolver uma alfabetização mais profunda. Não apenas saber usar tecnologia, mas saber quando usá-la, como usá-la e quando se afastar dela.
Essa preocupação não é moralista. Ela tem base concreta. O World Happiness Report 2026 mostrou que adolescentes que usam redes sociais por mais de sete horas por dia apresentam bem-estar muito mais baixo do que aqueles que usam por menos de uma hora.
Já um estudo da Microsoft Research, com 319 trabalhadores do conhecimento e 936 exemplos de uso real, mostrou que a confiança excessiva na IA generativa pode reduzir o esforço cognitivo e enfraquecer a prática do pensamento crítico. Em outro levantamento, da Walton Family Foundation com a Gallup, 49% da Geração Z disseram acreditar que a IA desafia sua capacidade de pensar criticamente, enquanto 22% disseram que ela a fortalece.
Talvez, então, a grande discussão sobre o futuro não seja se a IA vai vencer os humanos. Essa formulação me parece pobre. A pergunta mais importante é outra: o que os humanos vão escolher preservar em si mesmos quando tudo ao redor convidar à terceirização da atenção, da imaginação e do esforço?
Voltei de Austin com a impressão de que o futuro não será decidido apenas pela tecnologia que conseguirmos criar. Ele também será decidido pela qualidade da distância que soubermos manter dela.
A IA vai continuar avançando. Vai resumir, responder, editar, simular, automatizar. Vai nos ajudar em muita coisa. Mas talvez sua consequência mais profunda não seja nos afastar do humano. Talvez seja nos obrigar a perceber, com mais clareza, o que não deveria ser entregue a ela.
A atenção inteira. O pensamento próprio. A conversa sem mediação. A experiência vivida no corpo. O tédio que abre espaço para imaginação. A infância que volta a brincar quando o celular sai do centro da cena.
Talvez a inteligência artificial não nos roube o humano.
Talvez ela nos devolva a ele.
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A inteligência artificial vem revolucionando diversos setores da sociedade, trazendo inúmeras facilidades e benefícios para o dia a dia. No entanto, é importante refletir sobre o impacto que essa tecnologia pode ter na nossa rotina e na nossa relação com o mundo real.
É inegável que a inteligência artificial pode facilitar diversas tarefas do nosso cotidiano, tornando-as mais rápidas e eficientes. Por outro lado, o uso excessivo dessa tecnologia pode nos afastar da vida real, gerando uma espécie de “fome” por experiências genuínas e momentos de conexão humana.
Portanto, é crucial encontrarmos um equilíbrio entre o uso da inteligência artificial e a busca por vivências reais e significativas. A tecnologia deve ser uma aliada para melhorar nossa qualidade de vida, e não um obstáculo que nos distancia do que realmente importa.
Ao refletirmos sobre o impacto da inteligência artificial em nossa sociedade, podemos encontrar maneiras de aproveitar o melhor que essa tecnologia tem a oferecer, sem perder de vista a importância da vida real e das relações humanas. Cabe a cada um de nós buscar esse equilíbrio e tirar o melhor proveito da tecnologia para vivermos de forma mais plena e satisfatória.

