Deepfakes, algoritmos e campanhas digitais colocam o sistema eleitoral à prova, afirma especialista Fernanda Musardo
O ano de 2026 alerta para um cenário desafiador nas eleições no Brasil. Segundo a especialista em marketing digital e mídias sociais, Fernanda Musardo, o pleito será o primeiro grande teste do país sob o impacto massivo da inteligência artificial no ambiente político, onde a IA deixará de ser um recurso secundário e passará a ocupar o centro de todo o processo, desde a produção de conteúdo até a forma como as informações circulam nas redes e são fiscalizadas.
A preocupação, de acordo com Fernanda, também envolve a segurança do sistema eleitoral. A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) já apontou os ataques cibernéticos com uso de inteligência artificial como um dos principais desafios para a segurança nacional em 2026. “A preocupação envolve desde tentativas de interferência externa até o uso de agentes autônomos capazes de manipular os sistemas, promover todo tipo de desinformação em larga escala e fragilizar ainda mais a confiança em todo o sistema eleitoral brasileiro”, afirmou.
Um dos principais alertas é o uso de deepfakes, vídeos e áudios gerados por inteligência artificial que simulam com alto realismo a imagem e a voz de pessoas. “As manipulações não se limitam a desinformação. Elas atingem a honra de candidatos, elas vão alterar as percepções do eleitorado e contaminar o debate público”, apontou.
Para enfrentar esse cenário, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já criou regras específicas para 2026, proibindo deepfakes e exigindo que todo conteúdo produzido com inteligência artificial seja identificado. No entanto, Fernanda ressalta que a fiscalização é complexa, especialmente diante do grande volume de material que circula diariamente nas plataformas digitais. “E a gente precisa lembrar também que nem todo mundo segue as leis do país”, pontuou.
Outro fator de atenção, conforme a especialista, são os algoritmos das redes sociais, que definem quais conteúdos cada usuário recebe. Essa lógica pode limitar o acesso a diferentes versões de um mesmo fato e favorecer determinadas narrativas sem que o cidadão perceba. Além disso, as campanhas devem investir fortemente no chamado micro-targeting, que usa inteligência artificial para criar mensagens personalizadas para grupos cada vez menores, com base no perfil emocional, ideológico e comportamental do eleitor.
Diante desse cenário, Fernanda avalia que as eleições de 2026 serão marcadas por três disputas simultâneas: entre os candidatos, pelas narrativas no ambiente digital e pelo controle das tecnologias envolvidas.
“Caberá o eleitor, mais do que nunca, filtrar o senso crítico. Vai exigir mais desconfiança, principalmente das perfeições das imagens, questionar a origem das mensagens que recebermos. Então, vai depender muito do nosso desconfiômetro de tudo. O risco não é só acreditar em mentiras, é não saber reconhecê-las, e a gente vai estar diante de um cenário onde reconhecer vai ser muito mais complexo”, apontou.
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