03/01/2026 – 8:00
Após um 2025 de recordes da bolsa de valores mesmo em meio a um cenário de juros altos, o ano de 2026 reserva expectativas de cortes da Selic já no primeiro semestre e, na contramão, preocupações maiores com a política fiscal, dado que será ano de eleição.
+IBGE: desemprego fica em 5,2% em novembro e renova menor taxa da série histórica
No momento, o Banco Central (BC) tem se mantido cauteloso acerca de sinalizações sobre a queda de juros. Em coletiva de imprensa ainda neste mês de dezembro, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, reiterou diversas vezes que ‘não há porta fechada nem seta dada’ para as próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom).
O presidente da autarquia frisa que o comitê tem preferido ‘esperar chegar lá’ com mais dados nas mãos em detrimento de sinalizar algo de antemão.
“A facilidade que temos em não dar nenhuma pista não é por estarmos sendo habilidosos em esconder algo, mas na verdade por que não temos sobre o que dar uma pista. É mais vantajoso não tomar essa decisão agora, ganhar este tempo e poder tomar essa decisão somente em janeiro. É assim que deve ser entendida essa questão”, disse.
Apesar disso, após um período ‘bastante prolongado’ de Selic a 15%, a taxa básica de juros deve começar a ser cortada no começo de 2026. O consenso do mercado financeiro espera que a taxa feche o ano a 12,25%, representando uma retração de 2,75 ponto percentual (p.p.) em relação ao patamar atual.
Veja abaixo quais as principais oportunidades destacadas por especialistas e analistas de mercado.
Bolsa de valores segue atrativa e com múltiplos descontados
O ano de 2025 foi marcante para o Ibovespa, principal índice de ações da bolsa brasileira, dadas as várias renovações de recordes – e ainda assim, uma fatia significativa do mercado enxerga potencial de novas altas por conta dos múltiplos vistos como ‘baratos’.
O Ibovespa passou boa parte do ano em trajetória de alta, renovando recordes históricos e superando os 164 mil pontos pela primeira vez, refletindo um mix de fatores que voltaram a colocar o Brasil no radar dos grandes players globais do mercado financeiro.
Um levantamento da Elos Ayta Consultoria aponta que, dentro da carteira do Ibovespa, cerca de 72% dos papéis conseguiram ultrapassar a performance do CDI, um feito relevante considerando que o CDI se beneficiou diretamente do patamar elevado da Selic.
Mesmo com esse movimento positivo nas cotações, muitos analistas destacam que os múltiplos de avaliação do Ibovespa permanecem abaixo das médias históricas.
Um dos indicadores mais observados é o Preço/Lucro, que relaciona quanto o mercado está disposto a pagar pelos lucros das empresas. Estimativas apontam que o Ibovespa estaria negociando a cerca de 9 vezes os lucros projetados para os próximos 12 meses, contra uma média histórica mais alta.
Esse patamar implica que, sob a ótica de valuation, o índice ainda pode estar com desconto em relação aos padrões históricos – e que, para voltar à média tradicional desse indicador, as ações poderiam subir cerca de 25% apenas para normalizar esse múltiplo.
Ao excluir empresas que tendem a puxar o índice para baixo, como grandes exportadoras de commodities, o múltiplo do Ibovespa também continua inferior à média histórica de mercados emergentes, reforçando essa noção de valuation atrativo.
Fernando Ferreira, Felipe Veiga e Raphael Figueiredo, da XP, destacam que a visão da casa segue construtiva para 2026 em se tratando de ações, mas com seletividade, focando em empresas com geração de caixa e balanços menos alavancados.
O cenário-base da casa é de Ibovespa a 185 mil pontos, com um potencial de valorização de 17,5% – cenário que assume uma expansão de múltiplos e juros reais de longo prazo em torno de 7,1%.
A XP espera que o Banco Central inicie cortes na Selic em março de 2026, levando a taxa para 12,00% ao final do ano. Historicamente, a bolsa avança em média 39,2% em ciclos de afrouxamento.
A estratégia recomendada foca em empresas de alta qualidade, com balanços sólidos e baixa alavancagem:
- Sensíveis a Juros: Preferência por nomes como B3 e BTG Pactual (beneficiados pelo fluxo saindo da renda fixa) e “bond-proxies” como Axia, Energisa e Iguatemi
- Imobiliário e Varejo: Devem se beneficiar da queda do custo de capital e do aumento da renda disponível (via reforma do IR)
- Commodities: A XP vê a Suzano como um diferencial defensivo e dolarizado , e a PRIO como destaque em petróleo pela alta geração de caixa
- Saneamento e Elétricas: Sabesp é a principal escolha em saneamento pela capacidade de gerar valor , enquanto Equatorial lidera nas elétricas
Investir em renda fixa, mas de olho na transição
Para a renda fixa em 2026, a XP projeta um cenário de transição, dado que o início do ciclo de queda da Selic tende a abrir oportunidades para travar rentabilidades elevadas, mas o ambiente ainda exige cautela diante das incertezas fiscais e do contexto eleitoral.
A recomendação da casa é de uma alocação internacional de 15% nessa modalidade de investimentos. Os títulos do Tesouro americano são vistos como um ativo de referência no cenário global, combinando segurança com taxas historicamente elevadas, próximas de 5,5% no limite superior da curva.
A estratégia internacional sugere uma duration média entre quatro e cinco anos, mesclando papéis do governo dos Estados Unidos com títulos corporativos de alta qualidade. Além do retorno financeiro, essa parcela da carteira cumpre o papel de diversificação geográfica e proteção cambial.
Na fatia relativa ao mercado doméstico, a recomendação é para que o investidor passe a migrar gradualmente de posições exclusivamente conservadoras, concentradas em ativos pós-fixados, para instrumentos que ofereçam proteção contra a inflação ou permitam aproveitar as taxas prefixadas atualmente disponíveis.
“Mantemos preferência por vencimentos intermediários (duration média de seis anos), diante da maior volatilidade esperada para títulos de prazos mais longos sem contrapartida de maiores prêmios”, observa a casa.
“Para 2026, mesmo com a taxa de juros em provável trajetória de queda, devemos manter uma exposição relevante em renda fixa pós-fixada, aproveitando o carrego elevado proporcionado pela Selic com uma inflação que seguirá provavelmente mais próxima ao teto da meta”, segue.
Os títulos atrelados ao CDI ou à Selic seguem como base da carteira, especialmente para reserva de emergência e gestão de caixa.
IA que ditou ritmo de mercados em 2025 deve ser tendência em longo prazo
O tema de Inteligência Artificial que causou grandes oscilações no mercado em 2025 deve se manter. No ano, papéis como os da Nvidia somaram valorização na casa dos dois dígitos.
Na visão de analistas do BTG Pactual, o tema não é uma ‘bolha’ e sim uma tendência de longo prazo, e a inteligência artificial deve ocupar posição central nas estratégias de investimento em 2026, não apenas pelo ritmo de inovação, mas pelos sinais concretos de retorno econômico já observados.
A tese é de que, diferentemente de ciclos anteriores de tecnologia, o avanço atual da IA ocorre em um ambiente de empresas mais lucrativas, com balanços sólidos e forte geração de caixa, o que reduz o risco de uma expansão baseada apenas em expectativas.
O ciclo de investimentos também ajuda a explicar por que a IA tende a seguir relevante em 2026. Projeções indicam gastos anuais próximos de US$ 1,2 trilhão em infraestrutura ligada à IA, incluindo data centers, chips e serviços de nuvem.
Esse volume de capital forma uma base produtiva capaz de gerar retornos recorrentes, com estimativas de retorno sobre o capital investido ao redor de 20%. Na prática, trata-se de um investimento comparável a grandes ondas tecnológicas do passado, como eletrificação ou internet, mas que ainda representa uma parcela relativamente pequena do PIB global, o que sugere espaço para continuidade.
Empresas como a Microsoft (MSFT) são vistas como pilares da IA corporativa, com crescimento esperado em Azure e integração de IA em produtos empresariais, o que fez os papéis entrarem na mira de diversos analistas.
Ademais, a Nvidia segue no radar, como líder em chips de IA para datacenters, com potencial de continuar capturando grande parte da demanda global por hardware de alto desempenho, e a Amazon deve capturar valor através da AWS e investimentos em IA generativa e serviços em nuvem, com consenso de analistas sugerindo potencial de valorização.
Para investidores que preferem diversificação automática, os ETFs focados em IA e tecnologia são uma opção frequentemente recomendada:
- Global X Artificial Intelligence & Technology ETF (AIQ) – exposição ampla a ações ligadas à IA e big data
- iShares Future AI & Tech ETF (ARTY) – diversificação global com foco em semicondutores e tecnologia
Diversificação global
Com uma não unanimidade do Federal Reserve (Fed) sobre o corte de juros em dezembro e preocupações com a saúde da economia americana, a diversificação global é um fato de atenção em 2026.
O PIB dos EUA cresceu 4,3% no terceiro trimestre, o que pode justamente frear o ritmo de cortes do Fed.
Analistas, nesse contexto, tem recomendado uma postura de cautela estratégica para o cenário internacional em 2026 e recomenda a transição de uma alocação mais agressiva para uma carteira equilibrada, com viés defensivo.
Especialistas da XP recomendam manter ao menos 15% do patrimônio aplicado no exterior, independentemente do perfil de risco.
A casa também enxerga um S&P 500 com preços mais justos – após três anos consecutivos de alta, a visão é de que os preços dos ativos já incorporam boa parte do otimismo relacionado à inteligência artificial e à expectativa de cortes de juros.
Com múltiplos elevados, o espaço para altas adicionais dependeria de novos fundamentos.
Nesse contexto, a XP identifica melhores oportunidades relativas em mercados emergentes, com destaque para a China. A avaliação é que esses mercados negociam a preços mais descontados e podem se beneficiar de estímulos governamentais, no caso chinês, além de um ambiente global menos pressionado por um dólar forte.
A renda fixa internacional aparece como um dos principais destaques da estratégia para 2026. Segundo a XP, os atuais níveis das taxas de juros nos Estados Unidos oferecem uma oportunidade relevante para o investidor que busca retorno em dólar.
Com os rendimentos dos Treasuries acima de 5% ao ano, a recomendação é priorizar títulos com duration média entre quatro e cinco anos, combinando papéis soberanos com crédito corporativo de alta qualidade.

