Quem nunca? Na era digital, a informação está a um clique de distância. Diante de uma dor, de ansiedade, de uma angústia inominável, a primeira consulta acontece diante de uma tela. Abrimos o celular e perguntamos: “O que pode ser?”
O “dr. Google” tornou-se o oráculo moderno, oferecendo diagnósticos instantâneos que oscilam do banal ao catastrófico. Mais recentemente, a cena ganhou novos protagonistas: os chatbots de inteligência artificial, como o ChatGPT, que, com respostas imediatas, articuladas e aparentemente seguras, aumentam o risco de que o usuário tome por verdade aquilo que pode estar profundamente equivocado. Mas se antes o alvo principal era direcionado ao físico, hoje também a psique entrou nessa lógica. Não é raro ver pessoas digitando: “será que tenho depressão?”, “sou bipolar?”, “tenho TDAH?”, “será que sofro de ansiedade generalizada?”.
O algoritmo devolve listas de sintomas e testes simplificados, prontos para enquadrar o sujeito em categorias rápidas. Essa pressa digital se alia a uma cultura que valoriza rótulos e respostas imediatas, mas que pouco espaço dá à elaboração da experiência singular de sofrimento. O sujeito continua sendo singular e com vivências e experiências que são únicas.
Na prática clínica, tanto médica quanto psicológica, já se percebe o grave perigo. Pacientes chegam ao consultório convencidos de diagnósticos virtuais, solicitando exames, remédios ou justificativas para enquadrar sua dor em termos que a internet legitimou. Do ponto de vista emocional, isso produz um efeito delicado: o sujeito passa a se identificar com um nome: “tenho depressão”, “sou borderline”, antes mesmo de poder falar de sua própria história.
O rótulo antecipa a escuta e estreita o espaço de interpretação. O analista não tem palavras prontas. Ele escuta para buscar uma compreensão acerca daquela pessoa.
O perigo maior não está somente na imprecisão clínica, o que é bastante grave, mas naquilo que se perde de humano. O diagnóstico verdadeiro não é a soma de sintomas lidos em uma lista: ele nasce do encontro. Dois sujeitos diferentes podem ter o mesmo diagnóstico, mas condutas diferentes ao lidar com isso.
É preciso compreender como cada um lida com suas particularidades. O analista escuta o silêncio entre as palavras para captar a singularidade de um gesto ou de um afeto. Nenhum algoritmo, por mais sofisticado, consegue substituir essa presença.
Isso não significa que a tecnologia seja inimiga. O acesso à informação pode dar ferramentas para formular melhores perguntas e até aproximar o paciente do cuidado. Mas, quando a busca vira substituto da escuta profissional, corre-se o risco de transformar a angústia em etiqueta, a dor em checklist, e o sujeito em diagnóstico. O dr. Google e o dr. ChatGPT talvez sejam sintomas de nossa época: a dificuldade de lidar com a incerteza, a pressa por respostas definitivas, o medo de esperar. Mas é justamente no espaço da espera, no intervalo entre a pergunta e a resposta, que nasce a possibilidade de entendimento. Afinal, tanto o corpo quanto a psique não falam em linguagem de algoritmos: falam em histórias, afetos e sentidos que só podem ser escutados na presença de outro humano.

