Há uns meses recebi um template com um passo a passo sobre como tornar o ChatGPT menos… cordato, digamos assim. Lá fui eu, munida de novos inputs, na esperança de ajustar comandos, tensionar perguntas, provocar respostas menos agradáveis, menos neutras, menos “em cima do muro”. É curioso como, depois de um tempo, a gente mesmo se cansa de ter sempre razão.
Não, minha inteligência artificial não passou a funcionar diferente da sua. Segui sendo o limiar entre a ferramenta e a consciência. A parte instável, porém cheia de nuances da relação.
Essa reflexão voltou com força quando assisti à série Pluribus, produção original da Apple TV+, criada por Vince Gilligan, o mesmo nome por trás de Breaking Bad e Better Call Saul. O título vem da expressão latina pluribus unum, que significa “dos muitos, um”. E a história parte de uma premissa tão sedutora quanto perturbadora: de repente, quase toda a humanidade passa a operar como uma única consciência coletiva, pacífica, funcional e aparentemente feliz. Prestem atenção nesse aparentemente.

IA tende a responder de forma segura, aceitável, estatisticamente confortável Foto: Adobe Stock
Sem entrar em spoilers, o que Pluribus propõe é um mundo sem atrito. Sem ruído. Sem conflito. Tudo funciona. Tudo flui. Tudo parece melhor.
Até deixar de ser.
Na minha empresa, usamos IA para otimizar processos. Para vendas, por exemplo, a eficiência é inegável quando se entende que não é sobre automatizar tudo, e sim usar dados e comandos para agir no momento certo.
Esse é, talvez, meu maior aprendizado sobre inteligência artificial. As operações que performaram melhor são aquelas que usam a tecnologia para ler sinais reais de interesse, como comportamento, timing, intenção, em vez de repetirem abordagens em massa.
A IA, por natureza, busca padrões. Ela trabalha com médias. Ela tende a responder de forma segura, aceitável, estatisticamente confortável. Exatamente como a mente coletiva de Pluribus. O problema é que vendas não acontecem no território do consenso. Elas acontecem no território da leitura fina, da escuta real, da tensão bem conduzida e, muitas vezes, da discordância.
Existe um limite saudável no qual a inteligência artificial potencializa o humano. E existe um ponto perigoso onde ela começa a substituí-lo sem que a gente perceba. O papel da liderança, hoje, é identificar essa fronteira.
No fim, aquele template que prometia tornar o ChatGPT menos “cordato” diz mais sobre nós do que sobre a máquina. Somos nós que precisamos decidir quando parar de pedir respostas melhores e começar a fazer perguntas mais responsáveis.
Pluribus nos lembra que um mundo onde tudo funciona bem demais cobra um preço alto: alguém deixa de decidir. Cabe a nós decidir se queremos líderes que delegam eficiência ou líderes que assumem consciência.

