Segundo o Futurism, a indústria de robótica vive um descompasso cada vez mais evidente entre o discurso de seus líderes e a capacidade real das máquinas. Executivos de grandes empresas de tecnologia voltaram a prometer, nos últimos meses, uma revolução iminente, com robôs humanoides capazes de executar tarefas domésticas, cuidar de idosos e transformar a produtividade global. Na prática, porém, as demonstrações mais recentes indicam que esse futuro ainda está longe de se materializar.
O argumento ganhou força após declarações como a do CEO da Nvidia, Jensen Huang, que afirmou no ano passado que o “momento ChatGPT da robótica geral” estaria próximo. A tese é compartilhada por figuras como Elon Musk, que aposta no robô Optimus para reposicionar a Tesla como uma empresa de inteligência artificial e automação, com demanda “insaciável” por robôs humanoides.
O contraste ficou evidente na edição mais recente da CES, em Las Vegas, onde dezenas de empresas apresentaram protótipos de robôs. Apesar do espetáculo visual, muitas das demonstrações sofreram com falhas técnicas difíceis de ignorar.
Um robô projetado para dobrar roupas teve dificuldades para lidar com uma simples pilha de toalhas. Outro, anunciado como capaz de executar tarefas na cozinha, limitou-se a movimentos repetitivos e pouco funcionais, chamando atenção mais pela confusão operacional do que por qualquer sinal de autonomia real.
O problema não é pontual. Segundo o Wall Street Journal, há uma preocupação crescente dentro da própria indústria de que a transição entre construir robôs humanoides e torná-los efetivamente úteis leve muito mais tempo do que o mercado vem sendo levado a acreditar.
Entre vídeos promocionais e robôs de verdade
Para especialistas, o setor tem extrapolado demais a partir de vídeos curtos e demonstrações controladas. “Estamos fazendo um salto enorme entre ver um robô dobrar roupa em um vídeo e imaginar um mordomo funcional dentro de casa”, afirmou ao Wall Street Journal a consultora Ani Kelkar, sócia da McKinsey.
O caso da startup americana 1X ilustra bem esse abismo. A empresa chamou atenção ao anunciar o robô humanoide NEO, com preço estimado em US$ 20 mil. No entanto, quando começar a ser entregue a clientes iniciais, ainda dependerá de operadores humanos trabalhando remotamente, em vez de autonomia baseada em inteligência artificial.
Segurança, energia e o peso do mundo físico
Além das limitações técnicas, há entraves estruturais. A segurança é um deles. Robôs que operam próximos a pessoas, especialmente em ambientes industriais, precisam de sistemas extremamente robustos para evitar acidentes. O uso de modelos de IA, sujeitos a falhas e alucinações, torna o desafio ainda maior e mais caro.
Outro gargalo é a energia. Limitações atuais em baterias restringem o tempo de operação e a potência dos robôs humanoides, forçando pausas frequentes para recarga ou a troca constante de baterias, o que compromete a promessa de eficiência contínua.
Um futuro inevitável, mas não imediato
Executivos do setor insistem que o avanço é apenas uma questão de tempo. Mas, como aponta a Futurism, a complexidade e a imprevisibilidade do mundo físico impõem barreiras muito mais duras do que aquelas enfrentadas por softwares generativos.
Enquanto isso, a distância entre o que é prometido em palcos e entrevistas e o que robôs conseguem entregar fora de ambientes controlados continua a crescer. O “momento ChatGPT” da robótica pode até chegar, mas, por ora, a realidade ainda está bem aquém da narrativa.

