Popularização de dietas e treinos gerados por algoritmos preocupa médicos, que apontam riscos à saúde e falta de avaliação individual
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A popularização de ferramentas de inteligência artificial tem levado cada vez mais pessoas a utilizarem chatbots e aplicativos como substitutos de nutricionistas e médicos em processos de emagrecimento.
Nas redes sociais, especialmente em plataformas como TikTok e Instagram, usuários relatam seguir dietas, rotinas de exercícios e protocolos de jejum criados por algoritmos, muitas vezes sem qualquer avaliação clínica prévia ou acompanhamento profissional.
Relatos compartilhados online indicam o uso de comandos genéricos para a elaboração de cardápios com déficit calórico extremo, definição de jejuns prolongados e treinos intensos, baseados apenas em respostas automatizadas.
Algoritmos não avaliam limites individuais
Para o médico Gabriel Almeida, especialista em emagrecimento e saúde metabólica, o principal risco está na falsa sensação de personalização oferecida pela tecnologia.
“O algoritmo trabalha com padrões gerais e não reconhece limites individuais. Ele não identifica histórico de transtornos alimentares, doenças hormonais, uso de medicamentos ou sinais de desnutrição”, afirma.
Segundo o especialista, sistemas de inteligência artificial também não são capazes de reconhecer quando o organismo começa a apresentar sinais de alerta.
“A inteligência artificial não percebe quando o corpo entra em sofrimento. Ela não avalia exames, não acompanha sintomas e não ajusta condutas diante de efeitos adversos”, explica.
Risco de práticas extremas
Outro ponto de preocupação é o estímulo a comportamentos extremos. Dietas altamente restritivas, jejuns prolongados sem indicação clínica e treinos extenuantes podem ser facilmente sugeridos por algoritmos quando o objetivo é acelerar a perda de peso.
“Transferir decisões sobre o próprio corpo para um sistema sem responsabilidade clínica transforma o emagrecimento em um experimento automatizado, sem qualquer rede de proteção”, alerta Gabriel Almeida.
Do ponto de vista médico, essas práticas não promovem emagrecimento sustentável e aumentam o risco de desidratação, desequilíbrios hormonais, perda de massa muscular, alterações cardíacas e agravamento de transtornos alimentares, especialmente em pessoas mais jovens ou vulneráveis.
“O recall metabólico pode até parecer positivo no início, mas o custo aparece depois, muitas vezes de forma silenciosa”, ressalta.
IA não substitui acompanhamento profissional
Para o especialista, a inteligência artificial pode ter um papel complementar, ajudando na organização de informações gerais sobre alimentação e atividade física, mas não deve substituir o acompanhamento profissional.
“Quando se trata de saúde, não existe atalho seguro. Emagrecimento é um processo clínico, individual e gradual. Nenhum algoritmo consegue substituir isso”, conclui.

