Estava a ler no Politico.com notícias sobre Elon Musk e surgiu-me a expressão para o título desta crónica: “What a Musk!”. Em caso de dúvida sobre se os leitores conseguiriam interpretar estas palavras como eu pretendia, fui perguntar ao ChatGPT (não é o que agora toda a gente faz!?). O significado que a Inteligência Artificial (IA) generativa atribuiu à minha expressão, em qualquer das três hipóteses, não difere da minha intenção:
“Que Musk!” (traduzindo para português) – Se for uma referência a Elon Musk, pode significar surpresa ou admiração pelo que ele fez ou disse;
“Que cheiro!” – “Musk” em inglês também significa almíscar, um aroma forte usado em perfumes. Nesse caso, a frase poderia ser uma reação a um cheiro intenso;
Ironia ou crítica – Dependendo do tom, pode ser usada de forma irónica para comentar algo extravagante ou controverso relacionado com Musk.
Para mim, parece óbvio que Elon Musk ou está do lado dos seus interesses empresariais, ou está com a administração Trump. Não pode estar nos dois. Mas essa não é uma opinião unânime, como constatei ao ler diversos artigos.
Durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla americana), esta sexta-feira, Musk apareceu no palco com uma corrente de ouro ao pescoço, um chapéu MAGA (Make America Great Again) preto e óculos escuros. De aparência excêntrica, recebeu uma motosserra de presente do presidente da Argentina, Javier Milei – como símbolo dos grandes cortes na “burocracia” do governo – e foi ovacionado de pé pelo público, que o ouviu dizer que, na sua mente, estava “uma grande tempestade”.
What a Musk!
É público e notório que Elon Musk está na corrida pela liderança do melhor modelo de inteligência artificial (IA) do mundo. Tanto que um grupo de investidores, liderado pelo homem mais rico do mundo, fez uma oferta não solicitada no valor de 97 mil milhões de dólares para controlar a organização sem fins lucrativos OpenAI, criadora do ChatGPT – proposta que foi rejeitada liminarmente por Sam Altman. O objetivo era, claramente, a dominância do mercado. Musk é fundador da startup xAI, que esta semana apresentou a última versão do seu modelo de IA, o Grok-3, concorrendo com gigantes como o ChatGPT – e assim se percebe a intenção desta oferta.
Surpreendido? Até aqui, não. Este é o lado empresarial, irreverente e comercialmente agressivo que todos conhecemos do patrão da Tesla e da SpaceX, que também comprou o Twitter (hoje chamado X), envolto em polémica.
Só que esta semana a polémica estendeu-se à sua relação com a administração Trump. E aqui é que se deve separar os interesses empresariais dos interesses do governo.
Musk afirma ter reduzido a despesa do Estado em cerca de 55 mil milhões de dólares (embora a Bloomberg tenha feito as contas e estime esse valor em apenas 16,6 mil milhões), ao liderar o Departamento de Eficiência do Governo (DOGE) norte-americano. No entanto, esta equipa terá acesso a bases de dados sensíveis e de uso restrito do DOGE, o que gerou preocupação entre os democratas – e até entre alguns republicanos – sobre a possibilidade de Musk as estar a utilizar para treinar o Grok-3. A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, nega estas alegações, afirmando que são “inequivocamente falsas”. Ainda assim, no meio de tanta polémica, a Casa Branca veio também esclarecer que o DOGE não é um departamento, mas sim um gabinete do executivo, e que Musk não é o líder oficial, mas sim um conselheiro de Trump.
Uma grande trapalhada.
Seja como for, é incontornável a necessidade de regras claras e bastante restritivas no acesso a informação sensível do governo para uso em IA. Porque uma coisa é o governo utilizá-la internamente, garantindo o cumprimento de todas as normas de segurança, e outra é permitir o acesso a empresas privadas – o que não se provou neste caso, é preciso esclarecer.
Em que circunstâncias é admissível que isso aconteça? Com que propósito e com que equidade poderia ocorrer? E, principalmente, quem controla esse acesso com independência e transparência? E há claramente uma parte da América que não quer saber as respostas.